Pesquisadores/as portugueses/as e brasileiros/as discutem inserção da perspectiva de gênero nas políticas de saúde
Autor: Equipe de Redação
Publicado em: 4 de abril de 2017
Atualizado em: 17 de dezembro de 2021
Os desafios, dificuldades e estratégias para inserção da perspectiva de gênero nas políticas de saúde em Portugal foram tema de seminário do professor António Manuel Marques, coordenador da Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal (Portugal), no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA), no último dia 30 de março. A palestra “O Gênero nas Políticas de Saúde: a experiência portuguesa” integrou a programação da Semana “Género e Saúde na vida adulta: diálogos entre Brasil e Portugal”, promovida pelo MUSA/PPGSC, com apoio da CAPES/FCT. Os eventos contaram com a presença de pesquisadores/as brasileiros/as e portugueses/as, entre eles Conceição Nogueira (Universidade do Porto), Liliana Rodrigues (Instituto Superior de Saúde do Alto Ave), Lilian Marinho (MUSA/Escola de Enfermagem na Universidade do Estado da Bahia), Ana Luisa Patrão Martins (Professora visitante do ISC/UFBA) e Estela Aquino (MUSA/Instituto de Saúde Coletiva da Bahia).
Em sua apresentação, António Manuel Marques traçou uma cronologia da inserção da abordagem de gênero nas políticas de saúde em Portugal e apontou alguns fatos marcantes, entre eles a publicação “Saúde, sexo e género – Factos, Representações e Desafios”, fruto de um conjunto de estudos elaborados no âmbito do projeto “Saúde, Sexo e Género – PROSASGE”; a criação do Núcleo de Gênero e Equidade em Saúde na Direção-Geral de Saúde; e a característica interministerial dos Planos para Igualdade de Gênero implementados em Portugal. “Por serem globais, genéricos, permitem que as áreas falem entre si: a saúde com a educação, a saúde com o trabalho, a saúde com a seguridade social. Penso que tem sido vantajoso o inter-conhecimento das várias áreas. Todos os ministérios poderiam ter seu plano – e têm – mas há um que é comum e esse diálogo, essa conjugação, traz muita riqueza para o objetivo em comum, que é promover a igualdade de gênero”, afirma o professor, que também atuou na Direção-Geral de Saúde de Portugal e avalia como positiva a existência de planos, documentos e um setor com essa responsabilidade na estrutura ministerial.
Ao falar sobre a experiência portuguesa, António Marques discutiu as dificuldades para dar visibilidade às questões de gênero e sensibilizar os/as gestores/as e tomadores/as de decisão. “A perspectiva de gênero nos permite olhar a saúde e a realidade, considerando que existem homens, mulheres, diferentes orientações sexuais e existem desigualdades em saúde. Portanto, quanto mais considerarmos isto, mais as ações em prol da saúde das pessoas serão adequadas. Por isso é preciso vencer essa dificuldade de fazer com que as pessoas que ocupam lugares-chave tomem conhecimento dessa forma de pensar, ouçam e entendam o que está por trás dela”.
Em entrevista ao OAPS, o pesquisador português destacou a produção e análise de dados epidemiológicos em saúde distribuídos por sexo/gênero como necessária para refletir sobre as desigualdades e construir estratégias mais eficazes de difusão de informações para a sociedade, de acordo com as especificidades dos diferentes públicos. “Temos sempre que pensar que há homens e mulheres, e isso se cruza com outros fatores: existem etnias, raças e classes sociais, há portanto um conjunto de desigualdades. Nós, em Portugal, avançamos muito em termos da qualidade de saúde, mas ainda há muita coisa para se fazer. […] A dificuldade maior é vender esta ideia de que a perspectiva de gênero aplicada à saúde traz mais sucesso, é bom para a população e ajuda a cumprir a missão dos serviços profissionais de saúde, que é melhorar a saúde das populações”.
Estela Aquino, professora titular do ISC/UFBA e pesquisadora do MUSA – Programa Integrado de Pesquisa e Cooperação Técnica em Gênero e Saúde, ressaltou a importância da troca de experiências entre pesquisadores/as dos dois países. “Brasil e Portugal têm muitas similitudes em termos culturais, como a influência da religião católica e as marcas de um longo período de ditadura. Por outro lado, Portugal é um país pequeno em termos territoriais, situado na Europa, e o fato de ter se inserido na comunidade europeia promoveu muitas mudanças sociais e econômicas no país. Esse diálogo entre os dois países é muito interessante para a gente comparar em que nos distinguimos e em que nos assemelhamos em termos dessa discussão da incorporação do gênero nas políticas de saúde”, explica.
Para Estela, o compartilhamento de saberes também tem potencial para colaborar com a construção de ações e estratégias na atual conjuntura brasileira. “A oportunidade de termos essa discussão nesse momento em que o Brasil está vivendo é muito importante no sentido de que, enquanto eles vivem hoje uma situação de um governo de centro-esquerda com influência da esquerda (que não está no governo, mas tem influído em termos das políticas), nós estamos vivendo exatamente o oposto: o avanço do conservadorismo, ameaçando conquistas que, embora tenham sido importantes, são insuficientes para o nível de desigualdade de gênero, de classe e de raça, de desigualdades sociais, que a gente tem no país. Esse diálogo pode nos ajudar a pensar como superar esse momento difícil”, arrematou.
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