Pesquisa revela baixo investimento público em saúde, aumento de despesas das famílias e efeitos da pandemia no consumo de bens e serviços
Autor: Patrícia Conceição
Publicado em: 22 de abril de 2024
Atualizado em: 8 de julho de 2024
Um panorama do setor saúde no Brasil, sob o ponto de vista econômico, revela os impactos da pandemia de Covid-19 no consumo de bens e serviços, os gastos das famílias brasileiras com serviços privados e medicamentos, a participação das atividades de saúde no total de postos de trabalho no país e, ainda, o investimento público do Brasil com saúde, um dos menores entre os países analisados.
As informações são fruto da pesquisa Conta-Satélite de Saúde (2010-2021), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e Ministério da Saúde. Uma extensão do Sistema de Contas Nacionais (SCN), a iniciativa apresenta análises sobre a estrutura produtiva e a dinâmica do setor de saúde no Brasil.
Segundo o estudo, em 2021 as despesas relacionadas à saúde no Brasil somaram R$ 872,7 bilhões, o equivalente a 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2019, antes da pandemia, o percentual foi de 9,6% (R$ 711,9 bilhões) e, em 2020, chegou a 10,1% (R$ 769 bilhões). Neste cenário, a saúde aparece como um setor fortemente afetado pela pandemia, que impôs maiores gastos tanto por parte do governo quanto das famílias.
“Em 2020, observamos uma queda na quantidade de procedimentos ambulatoriais e hospitalares, como consultas e cirurgias eletivas. No sentido oposto, em 2021 houve um crescimento do consumo de bens e serviços de saúde, o que pode ser parcialmente atribuído ao início da campanha de vacinação contra a Covid-19, ao aumento do consumo de medicamentos e à retomada da realização de consultas, exames e cirurgias eletivas” explica Tassia Holguin, analista da pesquisa.
Famílias gastam mais com saúde do que governo
No período de 2010 a 2021, a contribuição das despesas de saúde para o PIB aumentou – de 8,0% para 9,7% – e a análise por setor institucional indica o crescimento, até 2020, da participação das famílias e instituições sem fins de lucro nestes gastos.
A contribuição do governo aumentou até 2016 (4,0%), caiu em 2017 (3,9%), manteve-se estável em 2018 e 2019 (3,8%), voltou a crescer em 2020 (4,2%) e recuou novamente em 2021 (4,0%).
No período investigado, a média da participação das famílias e instituições sem fins lucrativos nas despesas com consumo final de bens e serviços de saúde foi de 57,6%, enquanto a contribuição do governo foi de 42,4%.
A comparação com países selecionados da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que o gasto público com saúde em relação ao PIB do Brasil é um dos menores (4,0%), atrás apenas do México (3,1%).
A pesquisa também mostra quanto cada país gastou em saúde por habitante no período, a chamada despesa per capita com saúde. Em 2021, o gasto per capita das famílias e instituições sem fins lucrativos no Brasil foi de R$ 2.387,50, enquanto o do governo foi de R$ 1.703,60. A despesa per capita brasileira foi 2,9 vezes menor do que a média dos países da OCDE.
Participação da saúde na geração de empregos
A Conta-Satélite de Saúde também apresenta dados sobre a participação da saúde na economia, a partir de sua contribuição para o valor adicionado total, a geração de renda e os postos de trabalho. No período analisado, as atividades ligadas à saúde tiveram um incremento em participação no total de postos de trabalho no Brasil – de 5,3%, em 2010, para 8,0% das ocupações, em 2021.
O setor suplementar de saúde concentra o maior número de ocupações (4,1 milhões), seguido pela Saúde Pública (2,7 milhões) e a atividade de comércio de produtos farmacêuticos, perfumaria e médico-odontológicos (1,3 milhões).
No agregado, entre 2010 e 2021, os postos de trabalho em saúde cresceram 59,8%, enquanto os demais setores apresentaram um aumento de 4,1%. O levantamento mostra que o crescimento dos postos de trabalho na saúde ocorre mesmo em momentos de crise econômica – 4,1% (2015), 5,2% (2016) e 1,9% (2020).
Outros dados e análises da publicação Conta-Satélite de Saúde (2010-2021) podem ser encontrados aqui.
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