Pesquisa analisa lugares ocupados pela fome no debate político brasileiro
Autor: Inês Costal e Patrícia Conceição
Publicado em: 20 de outubro de 2021
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022
Questão estrutural e persistente no Brasil, a fome tem ocupado diferentes lugares no debate político nas últimas três décadas. De carro-chefe de governo a ter sua existência negada, foi incorporada ao debate público de acordo com os interesses de cada gestão. Essa é a conclusão de um artigo, fruto do trabalho de doutorado de Fernanda Sá Brito (Ensp/Fiocruz), com orientação de Tatiana Wargas (Ensp/Fiocruz), publicado na revista Cadernos de Saúde Pública nesta quarta-feira (20).
O estudo discute os diferentes usos retóricos e sentidos associados à fome no período de 1986 a 2015 – ano em que o Brasil comemorava a saída do Mapa da Fome da ONU – e aponta a reatualização do debate a partir de 2016. Ao analisar documentos relacionados às políticas governamentais nesse período, as pesquisadoras identificaram distintos sentidos atribuídos à fome, que foi vista como carência nutricional, pobreza, miséria, injustiça social, desigualdade e insegurança alimentar grave.
No que diz respeito aos usos políticos, perceberam que a fome foi mobilizada retoricamente por diferentes atores, de acordo com os cenários de disputa, até quase desaparecer do debate e voltar em 2016. “Esse retorno também diz respeito ao não enfrentamento de desigualdades estruturais. Quando a fome perdeu espaço na agenda política, fragilizou-se também a política de segurança alimentar e nutricional e muitas conquistas retrocederam”, destaca a pesquisa.
“Por que a fome retorna ao cenário político e social tão rápido? Talvez porque nunca tenha sido efetivamente enfrentada. […] A retórica política é o que mobiliza auditórios e contribui para invisibilizar aqueles que passam fome, postergando o enfrentamento das situações estruturais que sustentam o modelo de reprodução das desigualdades no país”, concluem as autoras.
Clique aqui para acessar o artigo “Sentidos e usos da fome no debate político brasileiro: recorrência e atualidade” na íntegra.
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