Pesar, indignação e descaso no marco dos 100 mil mortos por Covid-19 no país

Autor: Inês Costal e Patrícia Conceição
Publicado em: 10 de agosto de 2020
Atualizado em: 5 de janeiro de 2022

Na semana em que o Brasil atingiu o número de 100 mil mortes oficiais por Covid-19, notas e análises buscaram marcar a amplitude da tragédia, prestar solidariedade às famílias das vidas perdidas e debater como o país chegou a esse quadro. Em meio a essas iniciativas, teve também minimização e negacionismo, presentes durante toda a pandemia, particularmente a cada vez que casos e mortes atingem números mais trágicos. País tem mais de 3 milhões de casos confirmados. 

 

A Frente pela Vida, que reúne entidades da saúde, da educação, da ciência e tecnologia e da comunicação, destaca as quase 200 mulheres grávidas e puérperas entre os 100 mil brasileiros mortos – o país concentra quase 80% dos óbitos por Covid-19 nessa faixa da população em todo mund –, e a falta de uma Plano de Emergência Nacional para enfrentamento da pandemia. “O quadro é estarrecedor e traduz o descaso e o desprezo pela vida dos brasileiros por parte das autoridades máximas do país, particularmente do governo federal, que não levam em conta as orientações científicas e das organizações de saúde. A grande maioria dos brasileiros infectados e mortos encontra-se entre os segmentos mais pobres, que sempre tiveram acesso muito precário à saúde, à educação, ao saneamento básico e à moradia digna. E o Brasil continua a repetir, no cenário da pandemia, as políticas públicas que cavam o fosso da desigualdade e da injustiça no país”. Leia aqui a nota na íntegra.

 

Em debate virtual, os pesquisadores Miguel Nicolelis, coordenador do Comitê Científico do Consórcio Nordeste; Natalia Pasternak (USP), presidente do Instituto Questão de Ciência; e José Gomes Temporão, ex ministro da Saúde, apontam negligência e negacionismo por parte do governo federal como causa para o alto números de mortes. Além da ausência de ação conjunta com estados e municípios, Temporão destaca a falta de comunicação efetiva com a população: “Há uma contra-política de desinformação que cotidianamente cria confusão, equívoco e desmobiliza ações para salvar vidas”. Clique aqui para assistir.

 

Outras iniciativas já buscavam dar a dimensão das mortes por Covid-19 mesmo antes do país chegar aos 100 mil mortos, como o portal Inuméráveis, memorial virtual dedicado à história
de cada uma das vítimas do novo coronavírus no Brasil, e a ferramenta No epicentro, que disponibiliza os dados simulando que o usuário está no centro da pandemia, desenvolvida pela agência de checagem Lupa.

 

Para o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Thiago Amparo, é preciso democracia para processar o trauma coletivo que as 100 mil mortes impõem. “Democracia depende dessa humanidade compartilhada em sentir o luto do outro como se nosso fosse, porque o é. Cem mil lutos pessoais impõem um trauma coletivo. Autoritarismo quer esmagá-lo no esquecimento; democracia, por sua vez, requer reconhecer nosso trauma coletivo e processá-lo com as armas que a democracia nos dá: política da vida contra a necropolítica diária”.

 

Na contramão das diversas manifestações, o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que “não é um número que vai fazer a diferença”, mas diagnóstico precoce, tratamento imediato e suporte respiratório antes da UTI. No dia seguinte após o país chegar ao número de 100 mil brasileiros mortos por Covid-19, o presidente da República lamentou cada morte “seja qual for a sua causa”, citando a execução de policiais militares em São Paulo. 

 

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