“Para o sistema de saúde privado, os bebês irem para a UTI é muito vantajoso”, diz Maria do Carmo Leal

Autor: Equipe de Redação
Publicado em: 5 de julho de 2016
Atualizado em: 4 de janeiro de 2022

“Não acredito que os médicos de sã consciência desejam que um bebê saudável tenha que ir para uma UTI neonatal para conseguir sobreviver. Na verdade, essa cultura da cesariana é uma prática que, por repetição, tornou-se quase uma norma. Os médicos começaram a intervir sobre o parto, como um experimento, sem nunca terem feito nenhum estudo para saber se essas intervenções melhoravam os resultados do processo”. A constatação é da coordenadora da pesquisa Nascer no Brasil: Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento, Maria do Carmo Leal, que concedeu entrevista para a 5ª edição do boletim informativo do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS) e do Centro de Documentação Virtual (CDV).

No bate-papo, a pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) falou sobre o alto número de intervenções obstétricas no Brasil, o risco da realização de cesáreas marcadas e os interesses que envolvem a prática. “Está se roubando tempo de vida intrauterina dos bebês e as consequências disso para a vida futura a gente não sabe. […] A hora de trabalho para o médico tem muito valor econômico, assim é conveniente utilizar pouco tempo para fazer uma cesariana e ganhar bem por esse trabalho. Se ele for acompanhar um trabalho de parto vai ficar 12 horas para ganhar a mesma coisa. A questão financeira aí joga um papel muito importante. E para o sistema de saúde privado, os bebês irem para a UTI é muito vantajoso porque elas ficam lotadas de bebês, e o maior custo da atenção é a do cuidado intensivo, então para eles é muito lucrativo que tudo isso aconteça, que o bebê precise ir para a UTI para ficar lá um dia ou dois. Parece perverso falar assim, mas quando o valor econômico, o lucro, entram como componente da atenção à saúde, as coisas passam a serem contabilizadas dessa maneira”, criticou.

Maria do Carmo destacou também a necessidade de iniciativas em prol do parto sem intervenções desnecessárias e da sensibilização dos profissionais de saúde, principalmente médicos, quanto à centralidade do papel da mulher. “Se fez muita coisa para promover o parto normal, mas isso esbarra muito na resistência dos profissionais de saúde. […] Quando se quer mudar a prática e, principalmente, quando é para tirar uma intervenção consolidada para uma falta de intervenção a dificuldade é grande porque é uma forma de tirar poder do médico, entregar para a mulher a condução do parto e tirar dele o bisturi, o soro, o que não é necessário. Então é como se fosse – ‘Eu não tenho o que fazer aqui?’/ ‘Não, não tem mesmo não. Deixa a mulher seguir’”, explica.

Na entrevista, a pesquisadora defendeu ainda o respeito ao corpo e à autonomia da mulher na hora do parto como pauta dos movimentos feministas e a importância da divulgação dos conhecimentos produzidos em âmbito acadêmico para a sociedade em geral, o que ainda não é visto como parte fundamental da pesquisa no Brasil. “A ideia é que aquela pesquisa não é para você, é financiada pela sociedade e para ela deve voltar. […] Para aumentar o conhecimento tem que disponibilizar as informações para a sociedade, tem que discutir dentro do sistema público de ciência e tecnologia, e no nosso caso, setorialmente, no da saúde. Precisa dar utilidade real ao conhecimento advindo das investigações”, afirmou.

Para ler a entrevista completa, acesse aqui a 5ª edição do boletim informativo do OAPS/CDV.

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