Para avanço do SUS, é preciso foco nos problemas estruturais
Autor: Inês Costal
Publicado em: 5 de novembro de 2024
Atualizado em: 19 de novembro de 2024
Quais os caminhos possíveis na luta pelo Sistema Único de Saúde (SUS)? O debate que contou com exposições dos pesquisadores Ana Lesnovski (Unespar) e Gastão Wagner (FCM/UNICAMP) no primeiro dia do 5º Congresso Brasileiro de Política, Gestão e Avaliação em Saúde (5º PPGS) apontou rotas e reflexões para o enfrentamento dos desafios do SUS e da comunicação no cenário atual. A atividade reuniu congressistas em Fortaleza (CE), onde acontece o evento promovido pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).
Destacando as muitas dúvidas sobre as estratégias e os rumos que devem ser trilhados, Gastão Wagner abordou diferentes ações que podem contribuir para o avanço do SUS. Uma delas é reconhecer as conquistas e experiências positivas do sistema, que tem remado contra a maré do patrimonialismo e do racismo, contexto agravado pelo ultraliberalismo e pela ultradireita que marcam o cenário contemporâneo.
Uma outra frente de ação importante reiterada pelo sanitarista em sua exposição é a necessidade de enfrentamento das condições estruturais que são obstáculos para o sistema público, com construção de propostas concretas e um projeto voltado para o direito à saúde. Essa frente inclui medidas como defender e consolidar a instituição SUS; recuperar sua governança; orientar a ação pelos problemas de saúde e pelo acúmulo do conhecimento produzido; dar continuidade à implementação incompleta do sistema; fazer frente à contrarreforma que está em andamento. Para o pesquisador, o cenário recente tem sido marcado pelo enfraquecimento da estrutura tripartite da gestão do SUS – União, estados e municípios, com suas respectivas comissões – e pela demanda por uma autonomia radical dos municípios, que pode afetar e até anular toda a rede de saúde.
O pesquisador apontou a importância de reavivar o movimento sanitário e suas práticas, como a construção participativa e a defesa da democracia institucional, e de aumentar sua interseccionalidade com as lutas feministas e antirracistas.
Gastão fez críticas ao discurso de gestores e à postura “negacionista e de desânimo” que coloca a resolução de problemas estruturais como uma vontade idealista – “é uma postura que indica que o SUS não vale a pena”. O ex-presidente da Abrasco pontuou que é preciso ter posicionamento crítico e propositivo e apostar na possibilidade do SUS responder as necessidades da população. Nesse sentido, levar a atuação em defesa do SUS ao limite e buscar estratégias que levem as pessoas à rua, por exemplo, reforçando a mobilização pela redução das filas para atendimento.
A luta por recursos que tenham alocação definida, pela vinculação de emendas parlamentares ao planejamento regional e local, a superação da terceirização, da privatização e da fragmentação do sistema e da gestão autoritária, a realização de investimentos focados em vazios assistenciais e a construção de uma carreira para o SUS, com uma nova política e gestão de pessoal, são algumas das propostas indicadas pelo sanitarista, além de medidas como dobrar as equipes de atenção básica e fortalecer a atuação do SUS na apresentação de propostas de enfrentamento à violência.
O médico também pontuou a importância dos trabalhadores da saúde na defesa do sistema e no fortalecimento de políticas de solidariedade e de uma atuação coletiva pelo SUS, sem uso do “ódio como argumento” e com trabalho com as diferenças.
Os desafios da comunicação na luta pela democracia
A partir da perspectiva da comunicação, a jornalista Ana Lesnovski destacou conceitos e experiências que podem ajudar a entender o complexo quadro da área nos últimos anos. Um deles, a pós-verdade, se tornou mais conhecido a partir de 2016, em um contexto internacional que inclui o início do governo de Donald Trump nos Estados Unidos: são as afirmações ou informações que têm forte apelo emocional e vinculação a crenças pessoais e, por isso, são consideradas fatos ou verdades comprovadas. A professora da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) destacou que a pós-verdade marca a primazia da reafirmação da posição política sobre os fatos em si e as dificuldades para refutar teorias e opiniões baseadas em crenças.
Jornalista do canal Meteoro Brasil, no Youtube, a doutora em Comunicação mostrou como a produção de conteúdo para a plataforma envolve a superação de marcadores de objetividade mais tradicionais no jornalismo, com uma prática que prioriza a comunicação não violenta e não hierarquizada e a construção de uma relação de confiança e diálogo para formar uma comunidade com o público. Lesnovski apontou os algoritmos das redes sociais como um desafio que também precisa ser enfrentado no trabalho da comunicação.
De forma geral, as mensagens polarizadas são privilegiadas nas redes sociais, enquanto aquelas mais aceitas, com mais legitimidade, têm menor engajamento e são, por isso, menos distribuídas. O cálculo é: quanto menos legitimidade uma mensagem tem, mais ressonância (barulho) será gerada e maior será a exposição. Esse desenho, explica a pesquisadora, faz com que mensagens com mais engajamento, ainda que menos legítimas, sejam premiadas com melhor distribuição ao manter o público mais tempo nas plataformas e, consequentemente, com maior acesso a anúncios.
A jornalista pontuou ainda a importância da divulgação do conhecimento produzido pelas instituições e por pesquisadores de forma mais sintética e facilmente consumida por mídias independentes, cuja estrutura e equipe não têm condições de trabalhar em velocidade com documentos muito extensos.
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