Jairnilson Paim: “Se eu pudesse dizer que o SUS tem pai, eu diria que ele é filho dos movimentos sociais que lutaram contra a ditadura”
Autor: Inês Costal
Publicado em: 8 de julho de 2024
Atualizado em: 8 de julho de 2024
A importância de Sérgio Arouca para a Saúde Coletiva e para a Saúde Pública brasileira, a relevância do pensamento de Mario Testa e a responsabilidade das escolas públicas da área da saúde em formar pessoas para o Sistema Único de Saúde (SUS) são alguns dos temas abordados na entrevista do pesquisador Jairnilson Paim ao psiquiatra, docente da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ex-coordenador do Observatório Baiano sobre Substâncias Psicoativas (Cetad) da UFBA, Antônio Nery Filho. No bate papo disponível no canal Conversando com Nery no Youtube e no podcast Outras conversas, o editor do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS) fala também sobre sua trajetória, articulações construídas enquanto professor e pesquisador e referências na Saúde Coletiva.
Destacando que gosta de “ser professor na vida”, Paim conta seu percurso como professor da Faculdade de Medicina da UFBA por mais de 20 anos, a criação e posterior transferência para o Instituto de Saúde Coletiva da universidade, em 1995, e as conexões com referências brasileiras e internacionais da área. Ao apontar que a Saúde Coletiva tem uma marca latino-americana, mas uma “pegada brasileira”, cita nomes importantes na sua construção, como Arouca – que “inundou de dignidade a saúde pública brasileira” – e os pesquisadores Sebastião Loureiro, Guilherme Rodrigues da Silva, Reinaldo Guimarães, José Gomes Temporão, Sonia Fleury e Carmen Teixeira.
Fruto de uma articulação brasileira com figuras internacionais, que incluem o médico e senador Giovanni Berlinguer, o psiquiatra Franco Basaglia e os sociólogos Vicente Navarro, Juan César Garcia e Asa Cristina Laurell, entre outros, a Saúde Coletiva vem de um movimento “que ao mesmo tempo era político e era teórico, para fazer uma crítica à saúde pública convencional, uma crítica à medicina preventiva e à saúde comunitária com matriz norte-americana e criarmos algo novo”, explica Paim.
No âmbito internacional, o sanitarista menciona ainda o pensador Mario Testa, professor “que praticamente inventou uma metodologia de planejamento e gestão na América Latina e é uma referência para todos nós” e por quem tem muito carinho. O pesquisador argentino trouxe contribuições para os latino-americanos pensarem os países subdesenvolvidos e dependentes e que buscam alternativas que vão além do setor saúde: “Mario Testa pensava o setorial para chegar no societário, então essas relações entre saúde e estrutura social, saúde e sociedade, nós devemos muito ao seu pensamento”.
“Pai do SUS”
“Eu não sei se o SUS tem pai. Se eu pudesse dizer que o SUS tem pai, eu diria que ele é filho dos movimentos sociais que lutaram contra a ditadura”, afirma Paim.
“Eu participava desses movimentos, assim como você, assim como estudantes, professores, pesquisadores, sindicatos, associações de moradores, de mulheres, das periferias, da Igreja Católica, das comunidades de base, então foi esse conjunto de entidades e grupos sociais que constituíram aquilo que nós chamamos de movimento da democratização da saúde, que depois chegou à Constituição e resultou no Sistema Único de Saúde”, esclarece.
Provocado por Nery, Paim comenta também o papel e a responsabilidade das escolas da área da saúde, como Medicina, Enfermagem, Fonoaudiologia, Odontologia, Psicologia, entre outras, na formação de pessoas que enfrentem as necessidades do SUS. Sobre o uso de tecnologias no ensino e a importância de uma boa formação, Paim aponta que combinações tecnológicas podem ser acionadas para um modelo de cuidado e de atenção e destaca o papel da educação permanente junto aos profissionais.
Clique aqui e assista à entrevista no canal Conversando com Nery.
Confira também no podcast Outras conversas.
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