Impacto da violência armada para a saúde é tema de Comissão Lancet
Autor: Patrícia Conceição
Publicado em: 3 de outubro de 2024
Atualizado em: 9 de outubro de 2024
Quais as melhores evidências científicas disponíveis sobre os efeitos da violência armada na mortalidade, morbidade e lesões em todo o mundo? Como as armas podem ser modeladas como fatores de risco para a saúde global e como contribuem para as disparidades socioeconômicas na saúde? Quais as melhores práticas e experiências para mitigar as consequências da violência armada para a saúde da população? Estas são algumas questões sobre as quais a Comissão Lancet sobre Violência Armada Global e Saúde, lançada em setembro, pretende se debruçar para debater e desenvolver soluções.
O grupo de trabalho multidisciplinar reúne pesquisadores/as e especialistas de diferentes partes do mundo com o objetivo de sistematizar evidências disponíveis sobre o fenômeno, produzir novos conhecimentos científicos e fazer recomendações de estratégias e políticas públicas para enfrentamento do problema, a partir de uma abordagem integrada e baseada em dados.
A iniciativa expressa a crescente preocupação da comunidade internacional com a violência armada, apontada como uma emergência global de saúde responsável por cerca de 600 mortes diárias ao redor do mundo, além de inúmeras vítimas com lesões debilitantes que impactam a qualidade de vida delas e de suas famílias. O quadro é particularmente preocupante no Brasil, que ao lado dos Estados Unidos, Colômbia, Índia, México e Venezuela, integra o grupo dos seis países que respondem por dois terços das mortes globais por armas de fogo.
Retrato da segurança pública no Brasil
Dados da 18ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, iniciativa fundamental para construção de indicadores de segurança pública no país, mostram um aumento de 34% nos registros ativos de armas de fogo junto à Polícia Federal no último ano, com um volume total que ultrapassa os 2 milhões. “Mesmo com a nova política mais restritiva e a redução dos limites de armas de fogo que poderiam ser adquiridas, o cenário ainda preocupa”, aponta o estudo.
O Brasil é responsável por cerca de 17% de todos os homicídios relacionados a armas de fogo no mundo, com 32 mil assassinatos somente no ano passado. Enquanto a média global é de 40%, no Brasil 73,6% de todos os casos de homicídio envolvem armas de fogo. Um problema que atinge a população de maneira desigual: a maioria das vítimas são homens (94%) e negros (69%).
O anuário também indica uma redução acentuada de 27,7% nas mortes violentas intencionais (que englobam homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte, óbitos de policiais e óbitos decorrentes de intervenção policial) entre 2018 e 2023. Apesar da queda, o documento destaca que os níveis de violência letal no país estão longe de serem considerados adequados ou condizentes com padrões mínimos de desenvolvimento humano e social: “É preciso reconhecer que a tendência de queda é consistente e constante, mas é preciso alertar para o fato de o trajeto ainda ser longo e tortuoso. E esse caminho fica nítido na análise dos dados subnacionais, que mostram que a queda da violência letal no Brasil é desigual e heterogênea”.
Clique aqui para acessar o anuário na íntegra e conferir os dados completos.
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