EPI 2021 discute conjuntura brasileira, papel da epidemiologia e desafios para controle da pandemia
Autor: Inês Costal e Patrícia Conceição
Publicado em: 25 de novembro de 2021
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022
Leituras críticas sobre a conjuntura brasileira acompanhadas de debates sobre a redução das iniquidades em saúde, o papel da epidemiologia num cenário pós-Covid, a necessidade de criação de alternativas ao desenvolvimento e os desafios para controle da pandemia são alguns dos pontos que marcaram os primeiros dias do 11º Congresso Brasileiro de Epidemiologia da Abrasco (EPI 2021), que acontece entre os dias 23 e 26 de novembro, em formato virtual.
Já em sua cerimônia de abertura, o Congresso enfrentou temas incômodos e recorrentes no cenário brasileiro como a desastrosa gestão federal diante da pandemia, o agravamento das desigualdades sociais no país, o negacionismo e a reafirmação da ciência. Os discursos também destacaram o compromisso da epidemiologia brasileira com a construção de um sistema de saúde que promova a justiça social.
As críticas à condução do governo federal durante a pandemia atravessaram diversas conferências, mesas e discursos da programação. Em sua fala de abertura do EPI 2021, Lígia Kerr criticou o boicote à práticas de prevenção e as ações de disseminação da pandemia no Brasil: [O presidente] “rejeitou a gravidade do vírus, não providenciou testes, não organizou a atenção básica na pandemia, criou crises diplomáticas que interferiram na aquisição das vacinas, incentivou medicamentos sem comprovação científica e tentou impedir a implementação de medidas não farmacêuticas pelos governadores e prefeitos”.
A pandemia pautou muitas das reflexões presentes no evento. Mariângela Simão, diretora-geral assistente da Organização Mundial da Saúde para Acesso a Medicamentos, chamou a atenção para a iniquidade no acesso às vacinas, a importância de ações voltadas para a proteção das populações mais vulneráveis e os desafios para controlar a pandemia num mundo tão desigual. “O mundo não era bom e agora, talvez, esteja pior. Diante da iniquidade no acesso às vacinas e outras ferramentas de combate à Covid-19, grande parte da população mundial permanece suscetível à infecção, com risco aumentado de doença severa e morte”, alertou.
Diante do cenário pandêmico, a professora da UERJ e ex presidenta da Abrasco (2018-2021), Gulnar Azevedo e Silva, deu destaque à atuação da epidemiologia na produção científica para entender o novo coronavírus e no desenvolvimento de ações para subsidiar a tomada de decisões das autoridades, apesar dos constantes ataques ao SUS e do contingenciamento de recursos para a ciência. “Nossas instituições de ensino e pesquisa estão sendo desidratadas, e o SUS desfinanciado e atacado diariamente. É o momento de lutar para não perder o que foi construído e avançar para a reconstrução do país”, avaliou.
Ao debater a criação de alternativas ao desenvolvimento, o economista e político equatoriano Alberto Acosta Para Acosta defendeu que o caminho para construção de uma política global pós-desenvolvimento deve ser percorrido sob os trilhos da justiça social e ecológica, com a América Latina assumindo um papel fundamental: “Em termos econômicos, teríamos que estabelecer elementos para uma nova economia, que supere o fetiche e a religião do crescimento econômico permanente, com um passo em direção à desmercantilização da natureza e dos bens comuns”.
A cobertura completa do 11º Congresso Brasileiro de Epidemiologia pode ser conferida no portal da Abrasco.
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