Em entrevista para o OAPS, Sonia Fleury fala sobre crise social e SUS

Autor: Equipe de Redação
Publicado em: 24 de dezembro de 2015
Atualizado em: 5 de janeiro de 2022

Para a cientista política Sonia Fleury, a atual conjuntura é um “caldo de cultura” para o aumento do conflito social. Sonia cedeu entrevista ao Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS) sobre a conjuntura de crise político-econômica e seus impactos sociais. A pesquisadora, que atualmente coordena o Programa de Estudos sobre a Esfera Pública da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (Ebape/FGV), teve participação ativa no movimento da Reforma Sanitária e atuou como consultora da Assembleia Nacional Constituinte.

Confira mais abaixo um trecho da entrevista!

Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS): Como é que a gente pode estimar as dimensões da crise social já que todo debate tem se concentrado nas crises política e econômica?

Sonia Fleury: O que se vê, o que é visível, é a crise do impasse político que a sociedade está vivendo, que é um esgotamento de um certo pacto de convivência entre os setores tradicionais, que jamais deixaram de ter poder, e os setores emergentes, como sindicalistas, PT, entre outros, que passaram a ser também elite política. Esse pacto está completamente rompido e agora aparece com uma violência inusitada. Não que não tenha acontecido na sociedade brasileira essa violência classista, de preservação de ideologias mais exploradoras, dominadoras, tudo isso. A gente esperava que depois de 25 anos de Constituição democrática não iríamos viver isso desta forma. Você teria setores conservadores que estariam jogando dentro de um modelo democrático, não é isso que nós estamos vendo. Então o retrocesso social começa compacto, grudado na crise política. Não é possível que você imagine em uma manifestação como a das mulheres negras, com 10 mil, 20 mil mulheres, uma pessoa, policial, armado, autorizado a acampar frente ao Congresso pelo [Eduardo] Cunha para estar ali defendendo o golpe militar e o impeachment da Dilma em um lugar que nunca se permitiu nenhum tipo de acampamento ou manifestação e a Polícia Federal não faz nada também. Semana passada tinha ocorrido uma manifestação em que um deles atirou e era um PM, e agora outro, ex-PM, avança atirando sobre as mulheres negras porque para ele é insuportável conviver com essa manifestação de poder, desse sujeito político e dessas mulheres negras…é difícil que a gente pudesse imaginar isso há alguns anos atrás. Nós achávamos que a sociedade já estava suficientemente madura para não tolerar esse tipo de manifestação de violência de classe desta forma, e isso vem com uma força muito grande.

A primeira crise social é a crise da intolerância, da não aceitação do outro, vinculada a um projeto classista que são setores de classe média, de classe média baixa, dizendo “este lugar é meu e não abro”, assustadoramente defendendo. Isso se junta a pessoas que querem retirar o governo, o partido e tudo mais, mas quem vai para a rua é muito mais amplo do que grupos só de partidos políticos ou o que seja. Então, essa crise é ideológica, de intolerância, de não aceitação do outro, não reconhecimento do outro de tal forma que o outro é sempre um inimigo, tanto que tem que ser destruído – “a única forma de eu existir é destruindo aquilo”, quando o outro é visto como inimigo e não como um diferente. Nós achávamos que a sociedade tinha caminhado para aceitar pluralidade, nós somos de universos diferentes e, portanto, nós vamos negociar nossos conflitos, mas agora estamos em um momento em que o que é diferente de mim é meu inimigo e eu só posso existir se eu conseguir extirpá-lo. Esse é um grande retrocesso, de uma gravidade que é muito mais séria do que o problema do governo – de Dilma, não Dilma, se PT, se não PT –, eu acho que é um problema social muito grande.

A outra questão é que as políticas dentro da crise política e econômica, e da forma com que ela está sendo enfrentada, vão gerar um enorme retrocesso social e aí a possibilidade de acentuar essa conflituosidade vai ser muito grande porque vai de encontro a todas as expectativas de ascensão social, de mobilidade social que foram criadas durante esses anos para o bem. Na América Latina inteira a gente já vê que o ritmo de redução da pobreza cai, começa a crescer a indigência que nunca foi debelada, e a própria pobreza que foi reduzida começa também a aumentar em vários países desde a crise de 2008. O relatório da Cepal [Comissão Econômica para a América Latina] mostra esses dados com enorme clareza, não só diminui o ritmo de retirar as pessoas da pobreza como começa a aumentar [a pobreza], e quando aumenta é quando a crise econômica não é igual para todos. É uma crise econômica em que os jovens, homens, negros não têm mais emprego, não conseguem acesso ao mercado de trabalho; onde as mulheres negras que estavam diminuindo algum pouquinho o gap, a diferença dos salários com outros grupos sociais, voltam para baixo de novo. São coisas que vão atingir as pessoas que deveriam ter uma teia de proteção social para poder ascender, e é como se a teia, o mínimo que tinham, tivesse rompido, e elas ficaram balançando no ar. Esse balanço no ar é um sintoma de uma violência institucional, política, econômica e social enorme. Como é que essa sociedade vai reagir a esse processo? Não sei, mas ao você deixar essas pessoas sem emprego, sem salário, sem benefícios sociais, sem perspectiva de sentido de inserção e inclusão na sociedade, e mais doentes, sem acesso com a deterioração dos serviços de saúde, com escolas que não dão conta do acesso e quando dão conta do acesso não consegue ensinar as pessoas. Quer dizer, é um caldo de cultura para um aumento do conflito social. Não há nenhuma dúvida que o final da linha disso tudo é uma violência e não vai ser com medidas de coerção como UPP [Unidade de Polícia Pacificadora] que você vai colocar ordem na casa do capeta, não tem jeito.

Com formação nas áreas de ciência política, sociologia e psicologia, Sonia também falou sobre as alternativas divulgadas para a solução da crise econômica, perspectivas para as próximas eleições e apontou caminhos para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). O conteúdo completo da entrevista está disponível na 2º edição do boletim do OAPS e do Centro de Documentação. Basta se cadastrar aqui para receber a edição atual da publicação, e as futuras, por e-mail. O boletim é bimestral e sempre divulga conteúdo inédito.





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