Em entrevista à BBC, Jairnilson Paim rechaça ideia de “SUS para os mais pobres”
Autor: Equipe de Redação
Publicado em: 2 de junho de 2016
Atualizado em: 5 de janeiro de 2022
“Não estou dizendo que o SUS vai acabar, mas as medidas que esse governo está tomando e ameaçando tomar são no sentido de reduzir o sistema a um atendimento exclusivamente voltado para os mais pobres da sociedade”. A declaração é do coordenador do Projeto Análise Política em Saúde, prof. Jairnilson Paim, em entrevista à BBC Brasil. Na conversa, o pesquisador rechaçou a ideia de um “SUS para os mais pobres” e argumentou que “a experiência histórica aponta que um sistema de saúde voltado exclusivamente para os pobres tende a ser um sistema pobre, com financiamento reduzido, uma vez que o poder de vocalização política dos mais pobres é menor que o dos trabalhadores e da classe média, mais capazes de se mobilizarem, formarem opinião e pressionarem politicamente as instituições do sistema de saúde”.
Entre os temas abordados na entrevista estão a necessidade de ampliação das bases de sustentação para um sistema de saúde universal, a importância da discussão em torno da dívida pública brasileira como possibilidade de enfrentamento do subfinanciamento do sistema e o “milagre” feito pelo SUS. “É um sistema que, com todos os problemas que tem, inclusive financiamento, consegue produzir serviços de uma forma incalculável. Muito brasileiro não tem noção do que o SUS efetivamente tem feito nesses últimos anos”.
BBC Brasil: O ministro da Saúde, assim que assumiu, disse que seria preciso rever o tamanho do SUS e que “não vamos conseguir sustentar o nível de direitos que a Constituição determina”. Depois ele recuou. Afinal, é preciso diminuir o SUS?
Jairnilson Paim: O ministro expressou a visão de mundo não só dele mas de todos os grandes dirigentes do país ao longo dos últimos anos. Essa visão de que o direito à saúde não cabe no PIB, de que a Constituição de 1988 deve ser relativizada, é uma ideia das classes dominantes no Brasil.
Para o SUS ser efetivamente universal, público e integral, ele teria que ter base de financiamento que sustentasse isso. Todos os governos posteriores a 1988 não levaram às últimas consequências a garantia da estabilidade financeira do sistema.
BBC Brasil: Mas então todos os governos falharam?
Jairnilson Paim: Todos os governos, não faço crítica a esse ou aquele, porque eles todos tiveram a chance de enfrentar a questão do financiamento, especialmente o governo da social-democracia e os próprios governos do PT.
BBC Brasil: Após a fala do ministro, o PMDB foi criticado na área de saúde. Mas o senhor também critica os governos anteriores. Muda alguma coisa?
Jairnilson Paim: (O PMDB) representa uma piora, sem dúvida nenhuma. Nós vivemos problemas muito sérios no governo Collor, no governo FHC, mas nenhum desses problemas sérios que tivemos na década de 1990 se iguala a essa situação. Mais do que a ideia de diminuir, (o problema é) objetivamente criar um conjunto de medidas que vão inviabilizar um sistema de saúde universal. Não estou dizendo que o SUS vai acabar, mas as medidas que esse governo está tomando e ameaçando tomar são no sentido de reduzir o sistema a um atendimento exclusivamente voltado para os mais pobres da sociedade.
Deixe um comentário