Disfarçando as evidências? Relatório mostra como conhecimentos científicos foram mobilizados na CPI da Pandemia
Autor: Patrícia Conceição
Publicado em: 23 de março de 2023
Atualizado em: 23 de março de 2023
Criada com o objetivo de investigar as ações e omissões do governo Bolsonaro no enfrentamento da Covid-19, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia mobilizou a população brasileira diante da transmissão das sessões realizadas entre abril e outubro de 2021. Com a ciência no centro das atenções, prevaleceram estudos com falhas metodológicas, referências enviesadas e evidências científicas de baixa qualidade, o que contribuiu para o empobrecimento do debate público sobre a Covid-19. Este é o quadro revelado pelo relatório “Evidências em Debate”, elaborado em parceria pelo estúdio Lagom Data, Instituto Serrapilheira e Agência Bori.
O estudo se debruçou sobre a transcrição de 69 sessões da CPI durante o período de seis meses, um universo de 3,2 milhões de palavras que foram analisadas a partir de métodos quantitativos e qualitativos. Entre os principais achados estão o uso da “pompa” da ciência por negacionistas, que recorreram a referências enviesadas e vocabulário científico fora de contexto, com apoio de médicos governistas organizados pelo Whatsapp; a predominância de pesquisas com problemas metodológicos, apontados pelo governo ou pela oposição, entre aqueles mais citados durante as sessões, um recorte que não contempla a riqueza de conhecimentos produzidos sobre a doença; e o didatismo e a escassez de citações a evidências científicas pelos/as convidados/as pró-ciência, escolhidos em sua maioria pela relevância no debate público e não pela produção científica sobre a Covid.
“É preciso reunir relevância científica e debate público. De um lado, isso passa por preparar as instituições e pesquisadores para isso. De outro, passa por apresentar melhor as evidências ao público não especializado”, recomenda o relatório, segundo o qual faltou mais consultoria científica e mobilização entre oposicionistas, enquanto a bancada governista contou com um grupo articulado e um arsenal de referências para justificar as medidas adotadas pelo governo Bolsonaro em oposição às orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Disfarçando as evidências
Seja para defender o uso do “kit Covid” no chamado tratamento precoce ou para lançar dúvidas quanto à segurança e eficácia das vacinas, foram os bolsonaristas que mobilizaram mais referências científicas durante a CPI: das 110 referências localizadas pelo estudo nas falas da comissão, 39,3% vieram do senador Luís Carlos Heinze (PP-RS), que ao lado de Eduardo Girão (Podemos-CE) e Marcos Rogério (DEM-RO) formaram a “tropa de choque” responsável por defender as medidas governistas. Uma estratégia recorrente do grupo foi a aposta na quantidade de citações a estudos, sem levar em consideração a qualidade destes – boa parte dos trabalhos não havia sido publicada e nem sequer passado pela revisão por pares, que constitui etapa fundamental no processo científico.
Para Marcelo Soares, editor do relatório e diretor do Lagom Data, essas estratégias minaram a qualidade do debate público sobre as evidências científicas, o que indica a necessidade de a comunidade científica brasileira se organizar para ter mais impacto em políticas públicas. “Poucos bons estudos foram debatidos, passando ao largo da maior parte da produção científica sobre a Covid feita no Brasil. Pesquisas sobre os efeitos da omissão do governo no combate à pandemia foram pouco citadas ou, quando o foram, mobilizaram pouco os integrantes da CPI”, avaliou. Clique aqui para ler o relatório na íntegra.
Fonte: Agência Bori
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