Ciência compromissada em tempos de crise
Autor: Inês Costal e Patrícia Conceição
Publicado em: 18 de janeiro de 2018
Atualizado em: 4 de janeiro de 2022
Qual o papel da ciência em um cenário marcado por cortes de recursos para pesquisa, ameaças à autonomia universitária e manifestos em defesa da universidade pública como espaço de resistência e formação política? Quais compromissos devem ser assumidos por pesquisadores/as no desenvolvimento de seus trabalhos? Como construir conhecimentos que produzam impactos positivos na realidade da população brasileira e no quadro político social do país? Para discutir o papel dos/das pesquisadores/as na conjuntura de crise e ataques à ciência e ao direito à saúde, além da atuação do próprio Observatório na formação acadêmica e política de novos/as pesquisadores/as, a equipe do OAPS conversou com Tatiana Wargas e Júlio França durante a 4ª Oficina do Observatório de Análise Política em Saúde, realizada em Salvador, em novembro do último ano.
“A ciência no mundo precisa estar sempre contextualizada, não é uma coisa fora, externa à vida, ela precisa estar implicada com os problemas da vida, precisa responder às questões que estão colocadas como questões que mobilizam o homem e a mulher”. A afirmação é da sanitarista Tatiana Wargas (ENSP/Fiocruz), para quem é importante que os/as cientistas reflitam sobre o próprio trabalho, para quem e para o que ele serve: “Perguntar-se sobre o que a gente está fazendo, para quê servem as análises de políticas e para onde a gente está querendo ir é absolutamente fundamental porque a gente pode estar servindo a um projeto que não é o que a gente defende como projeto de vida”.
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“Eu gosto muito da nomenclatura do Boaventura de Sousa Santos quando ele fala de um ‘conhecimento prudente para uma vida decente’. A ideia é que o que a gente produz de conhecimento tem que estar implicado com as consequências desse conhecimento para a vida das pessoas. É uma vida decente o que a gente quer, então essa é uma postura que acho importante frente à produção de conhecimento e à pesquisa. […] Um outro autor que eu sempre me inspiro, que tem uma postura pragmática, não do imediatismo, mas de uma perspectiva de uma ciência construcionista, é o Jurandir Freire Costa, que fala ‘para quê afinal a gente pesquisa, senão para ser mais feliz? Por que a gente produz conhecimento, senão para ser mais feliz, para buscar a felicidade?’, e isso pode nos mover. É claro que isso é quase uma visão idílica, utópica em torno do que a gente faz porque sabemos que a gente não tem plena consciência, o tempo inteiro, do que fazemos, como fazemos, quais são as ideologias em jogo. Isso tudo é um exercitar-se e aí a reflexividade é também um ponto absolutamente fundamental porque se você não se colocar em análise o tempo inteiro, pode estar ajudando e construindo soluções que não são as melhores para as pessoas, para você mesmo, para a humanidade a longo prazo”.
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Ao falar sobre o documento do Banco Mundial, “Um ajuste justo” (saiba mais no boletim do Observatório), Tatiana comentou a participação de cientistas no relatório: “A gente conhece pessoas que participaram [e disseram] ‘ah, eu trabalho nessa área’, ‘eu trabalho com esse tema’, ‘me pediram uma análise e eu fiz uma análise fria dos dados’. Não existem análises frias dos dados, todas as análises são comprometidas com a realidade e a gente tem que saber para quem e por que estamos produzindo algumas coisas. Por fim, você pode até ter dados que friamente dizem aquilo, mas eles têm um uso. A gente pode os torturar para eles responderem a vários outros propósitos que não àqueles que a gente realmente acredita. São as disputas, o campo cientifico é um campo de disputas de verdades – quando Bourdieu trabalha com a ideia do campo científico é isso que ele está trazendo também – são disputas o tempo inteiro, disputas entre campos. Nem todo mundo vai chegar ao mesmo entendimento, e não é para chegar, é por isso que a gente tem que ir reconhecendo onde a gente fala e para quem a gente fala”, analisa.
Também pesquisador da Fiocruz, Júlio França, que integra o Conselho Consultivo do Observatório, acompanhou a Oficina e destacou o trabalho do OAPS com estudantes e pesquisadores, que vai além da realização de pesquisas: “Cada vez mais eu fico admirado com o trabalho que o Observatório tem realizado, particularmente, depois do vídeo e das apresentações dos estudantes falando sobre sua formação, desde a graduação até mestrandos e doutorandos. Ficou muito claro, para além de todos os eixos de pesquisas, as produções acadêmicas, teses, dissertações, tudo o que o Observatório tem produzido, a questão da formação política dos estudantes. Garotos novos, meninada nova que às vezes nunca ouviu falar da Reforma Sanitária ou do SUS ou então trabalhava com o senso comum de que o SUS é para pobres ou que não presta e que começa a questionar e vê que não é bem assim. […] Acho que o caminho é esse, pegar essa juventude, porque a gente tem que acreditar nela. A gente já está saindo de campo daqui a pouco, então é com a juventude que a gente tem que contar e o nosso papel, e do Observatório, é a formação não só acadêmica, mas também política desses estudantes da graduação ao doutorado”.
Para ler mais sobre o papel das universidades públicas em tempos de crise, clique aqui.
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