Cada vez mais desiguais: “Em matéria de ortodoxia, o governo Michel Temer é mais realista que o rei”
Autor: Equipe de Redação
Publicado em: 28 de março de 2017
Atualizado em: 14 de dezembro de 2021
Reportagem publicada no portal da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio aponta o avanço das desigualdades em todo o mundo. Hoje, as oito pessoas mais ricas do planeta concentram US$ 426 bilhões, o mesmo valor compartilhado por 3,6 bilhões de pessoas. Em 2015, 62 bilionários somavam suas fortunas para fazer frente a essa quantidade de pessoas. Mas, também em 2015, o 1% mais rico passou a acumular o mesmo que os 99% restantes. Os dados são divulgados pela ONG britânica Oxfam no Fórum Econômico Mundial, em Davos na Suíça.
Confira trecho da reportagem:
Ao mesmo tempo em que os dados do relatório da Oxfam repercutiam na imprensa internacional, Davos sediava um debate sobre como lidar com uma classe média cada vez mais ‘achatada e raivosa’. Lá, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e a presidente do FMI, Christine Lagarde, protagonizaram um duelo de posições, em que o brasileiro defendia a cartilha neoliberal, enquanto a francesa dava voz à recente guinada da entidade, dizendo que a prioridade da política econômica deve ser o combate à desigualdade social. A cena sugere que, em matéria de ortodoxia, o governo Michel Temer é mais realista que o rei.
“No Brasil o debate é marcado por um anacronismo. Todo esse debate de tributação que foi recuperado no resto do mundo, é completamente bloqueado aqui”, observa Rodrigo Orair, que informa que depois da crise de 2008, 21 dos 34 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) tomaram algum tipo de medida para ampliar a tributação. “O mundo está em crise e quase todos os países estão fazendo um esforço para consolidação fiscal que penalize menos os pobres e mais os ricos”, diz. O economista destaca que as ‘soluções’ do governo, como o ajuste fiscal e a Emenda Constitucional 95, que estabelece um teto para os gastos públicos nos próximos 20 anos, vão na contramão dessa tendência pois castigam a base da pirâmide ao cortar na política social justamente quando ela será mais necessária.
Esses efeitos já estão sendo medidos. Um estudo ainda inédito do Banco Mundial divulgado pelo jornal O Globo (13/02) prevê que entre 2,5 e 3,6 milhões de pessoas devem cruzar a linha da pobreza no Brasil em 2017. A maior parte delas é jovem, vive em centros urbanos e é escolarizada (38,2% têm ao menos o ensino médio completo). O principal fator de empobrecimento é o desemprego. Ao projetar dois cenários que levam em conta a crise econômica do país, a entidade estima que até 20,9 milhões de brasileiros podem ficar desempregados este ano. A entidade também estimou a quantidade de brasileiros em condição de pobreza extrema: os 3,4% de 2015 (dados da Pnad) devem saltar para entre 4,2% e 4,6% em 2017. O relatório leva em consideração os impactos do empobrecimento com e sem a ampliação do programa Bolsa Família.
Enquanto isso, a reforma tributária continua no final da fila, atrás da reforma da Previdência, da reforma trabalhista, da venda de terras para estrangeiros, da aprovação de uma regulação para a greve dos servidores que penalize quem integra essas mobilizações, e assim por diante. “No Brasil, há uma política deliberada de arrocho sobre as massas trabalhadoras, sobretudo as mais frágeis. Parece uma tentativa de disciplinamento através da violência econômica e da violência direta. As entidades de convencimento seguem muito ativas – a começar pela mídia – e, por enquanto, o que vem sendo acenado como compensação é a prisão de alguns dos muitos corruptos, uma compensação perversa do tipo ‘todos os trabalhadores perdem direitos mas alguns empresários e alguns políticos vão experimentar a cadeia’”, lamenta Virgínia Fontes.
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