Barbárie no RJ, potência da ação coletiva e conjuntura política desafiadora são destaques em Oficina-Assembleia
Autor: Inês Costal
Publicado em: 4 de novembro de 2025
Atualizado em: 10 de novembro de 2025
Com a participação dos professores Jairnilson Paim e Naomar de Almeida Filho, a Oficina-Assembleia do Mapa Colaborativo dos Movimentos Sociais em Saúde (MapaMovSaúde), realizada no Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da UFBA na última quinta-feira (30), discutiu a recente barbárie em favelas no Rio de Janeiro e a potência da ação coletiva em resposta a uma conjuntura política desafiadora. O evento foi organizado pelo Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), Cooperação Social da Fiocruz (Projeto Ciência, Saúde e Participação Popular e Projeto Promoção de Territórios Saudáveis e Sustentáveis em Centros Urbanos) e MapaMovSaúde, com o apoio do ISC e da Escola de Enfermagem da UFBA. A mesa de abertura contou com a presença da professora do ISC/UFBA, Joilda Nery, do presidente do Cebes, Carlos Fidelis, e da coordenadora do projeto MapaMovSaúde, Lucia Souto.
Na avaliação de Joilda Nery, a discussão proposta pelo evento se articula ao projeto político e estratégico do ISC, que tem uma parceria histórica com o Cebes “na luta em defesa da saúde e do direito de viver e pelo fortalecimento da Reforma Sanitária Brasileira”. A docente prestou solidariedade diante das recentes mortes em favelas do Rio de Janeiro (leia aqui e aqui), questão também destacada por Fidelis, que pontuou a potência da ação coletiva em resposta: “estar de luto não é parar de lutar”.
Para Lucia Souto, a sessão iniciava com o desafio da chacina ocorrida no Rio, com mortes tratadas com indiferença em meio a uma agenda golpista e autoritária, que naturaliza a violência. “A disputa atual por direitos é antiga, é preciso encontrar força coletiva para enfrentar esse golpe”, reforçou.
Reforma sanitária, conjuntura e o digital
Em uma apresentação provocativa e baseada em apontamentos e resultados de diversas pesquisas, o professor Jairnilson Paim (ISC/UFBA) fez um passeio pelas transformações da sociedade brasileira e da política nos últimos 20 anos, destacando a instabilidade política desde o golpe de 2016 no governo Dilma e o aumento da descrença e da desconfiança na política e no sistema político, o que inclui governos, partidos, ONGs, políticos, movimentos sociais, imprensa, entre outros.
O pesquisador apontou a necessidade de observar a estrutura de classes da sociedade brasileira e como ela tem sido impactada pelos governos: nos governos do PT, houve ganhos de renda em estratos mais baixos por políticas públicas, preservação dos capitalistas e perda relativa entre a classe média tradicional. Ao expor as divisões da população em posições políticas, afirmou que não se ganha eleição com os 25% formado por progressistas militantes e que é preciso conquistar os 54% “invisíveis, desengajados ou cautelosos”, que não se vinculam de forma direta à esquerda ou direita.
Para o professor, é preciso apostar na clareza teórica e em estudos e pesquisas de base empírica para acumular forças e orientar estratégias e práticas. Paim destacou como a interface público-privada no sistema de saúde tem que ser analisada a partir da sua atual conformação, na qual o SUS disputa recursos em condições desequilibradas e há poder expressivo do capital, tanto financeiro, quanto de infraestrutura, capacidade de produção e de gestão. No âmbito das eleições de 2026, reforçou a importância da defesa do SUS como uma das políticas mais inclusivas, igualitárias e exitosas e sua vinculação ao projeto da Reforma Sanitária Brasileira, da prática de ações intersetoriais e da atuação nos territórios, o “olhos nos olhos”, compromissada com trabalhadores, estudantes, artistas e produtores de conhecimento, sem abandono da ação digital.
As características do que tem sido designado como “digital” foram exploradas pelo professor Naomar de Almeida Filho, que apontou sua presença no SUS desde o início do sistema público, com a reprodução de imagens, identificação de padrões e tomadas de decisão a partir do uso dessas tecnologias. Definido como a capacidade de converter, armazenar e transmitir em código binário, o digital teve seu sentido social e questões políticas relacionadas abordadas pelo pesquisador. Além de uma individualização radical do contato com os seres humanos por meio dos smartphones, Naomar destacou o poder das big techs, as promessas de automatização do processo produtivo, o cultivo de mitos e a necessidade de regulação pública, em especial em uma sociedade atravessada pelo mercado como a atual.
Na saúde, o professor reforçou como o digital tem possibilitado o registro de um imenso volume de dados sobre a saúde e a reprodução da presença em tempo real na telessaúde.
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