Associações se manifestam contra corte de verbas para cursos de humanas

Autor: Equipe de Redação
Publicado em: 29 de abril de 2019
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022

Associações de ensino e pesquisa se posicionaram contra o corte de investimentos nos cursos de humanas defendido pelo governo. A medida, divulgada pelo governo em redes sociais, tem sido justificada como priorização de áreas que “gerem renda” e deem “retorno imediato ao contribuinte”, como veterinária, engenharia e medicina. Não há detalhes sobre como a proposta será implementada, mas alunos já matriculados em faculdades de filosofia e sociologia, cursos especificamente apontados, não seriam afetados. Para a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), o anúncio revela desconhecimento da autonomia universitária, aa natureza da produção científica e da necessária colaboração entre as áreas do conhecimento.

 

Em nota pública, a Andifes defende que as universidades são projetos de Estado, não de governo, e contam com autonomia consagrada na constituição federal para a definição dos cursos que ministram, das pesquisas que realizam e das relações que estabelecem com a sociedade.

 

“As universidades públicas são reconhecidas como um lugar fundamental de combate ao preconceito, à ignorância, ao atraso, à violência, sendo, destarte, instituições exemplares da civilização. A agressão à universidade por visões imediatistas desconhece sua tarefa permanente de produção de conhecimento e de formação de profissionais de nível superior, podendo significar um atraso tecnológico, cultural e científico em relação aos outros países, com prejuízos para as condições de vida e o bem-estar de nosso povo”.

 

Para Andifes, anúncio denuncia desinformação, preconceito e estreita motivação ideológica. Em nota à imprensa, as associações brasileiras de Antropologia (ABA) e Ciência Política (ABCP), a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) e a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) afirmam “extrema preocupação” com as declarações do governo: “A reflexão das ciências humanas e sociais, incluída a filosofia, tem sido tão crucial para a formulação e avaliação de políticas públicas como para o desenvolvimento crítico das demais ciências. É inaceitável, portanto, que essas disciplinas sejam consideradas um ‘luxo’, passível de corte em tempos de crise econômica como a que vivemos atualmente no país ou de ‘rebaixamento’ por motivação político-ideológica.

 

Também por meio de nota pública, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) destacou o papel das Ciências Humanas e Sociais na produção de reflexão crítica sobre a sociedade e seu funcionamento, elemento fundamental no processo democrático e necessário para o controle social e político. “Críticas orquestradas dirigidas às Ciências Humanas e Sociais constituem parte de uma estratégia mais geral que ameaça toda a pesquisa científica do País. Pretende-se restringir a formação universitária à mera aplicação de técnicas importadas e reduzir fortemente os investimentos em ciência, tecnologia e inovação, o que afetará profundamente as universidades e instituições públicas de pesquisa responsáveis por grande parte da produção científica e tecnológica do Brasil e colocará em risco a sobrevivência do sistema nacional de CT&I e a própria soberania nacional. O domínio da cadeia de conhecimentos científicos e tecnológicos, como evidenciado pela história de todos os países desenvolvidos, é imprescindível para a superação da crise atual do País e para seu desenvolvimento econômico e social”’, conclui.

 

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) declarou compartilhar a preocupação, reiterando que o conhecimento produzido por tais ciências é estratégico para superar a crise atual e minimizar seus efeitos sobre a saúde da população brasileira. “O diálogo com as ciências humanas e sociais, incluída a filosofia, é constitutivo do campo da Saúde Coletiva e tem sido crucial para a formulação e avaliação de políticas públicas em saúde, para a compreensão da distribuição diferencial de doenças e agravos pelos diferentes grupos sociais e para o enfrentamento dos complexos processos de saúde e doença”.





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