Após pressão de entidades, governo nomeia Nísia Trindade para presidência da Fiocruz
Autor: Equipe de Redação
Publicado em: 4 de janeiro de 2017
Atualizado em: 6 de janeiro de 2022
A socióloga Nísia Verônica Trindade Lima, candidata vencedora das eleições internas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), foi nomeada ontem (3) presidente da fundação. Notícias veiculadas na imprensa na última semana apontavam que o governo nomearia para a presidência da Fiocruz a candidata derrotada nas eleições, a pesquisadora Tania Cremonini de Araújo-Jorge, e não a vencedora do pleito, Nísia Trindade Lima, que obteve 2.556 votos. A indicação de um candidato derrotado nas eleições internas está prevista no regimento da fundação, mas os resultados têm sido respeitados desde o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. A notícia de que a nomeação de Tania seria publicada no Diário Oficial provocou turbulência e protestos na Fiocruz e desencadeou uma série de notas de repúdio de entidades da área de saúde e instituições de ensino e pesquisa.
Em notícia publicada na noite de ontem, o Ministério da Saúde informa a nomeação de Nísia, destacando seu currículo, e não comenta ou faz referência às notas de entidades como Abrasco – Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Abres – Associação Brasileira de Economia da Saúde e Cebes – Centro Brasileiro de Estudos de Saúde que repudiavam a possibilidade de nomeação da candidata derrotada, além da carta da própria Fiocruz, que destacava a importância da preservação do processo de gestão democrática e participativa da fundação e a expectativa que a candidata mais votada nas eleições fosse nomeada à presidência, como tradicionalmente têm ocorrido. A matéria traz uma declaração do ministro da Saúde, Ricardo Barros, que afirma que “a escolha [da presidente] foi fruto de união, onde todos tiveram participação na busca dos objetivos da Fiocruz”. “Houve uma conciliação de interesses, de união em torno dos objetivos que estão propostos pela Fiocruz. Dentro desse quadro, de diálogo e de articulação do Ministério e Fiocruz, o Presidente Michel Temer entendeu que essa era a solução mais adequada e mais efetiva para as mudanças que precisamos na Fiocruz”, discursou.
Leia o posicionamento de entidades publicado antes da nomeação:
Nota Fiocruz
Na “Carta ao presidente Michel Temer e à sociedade brasileira”, a Fiocruz defendeu o respeito ao “intenso processo democrático, de escolha de candidatos à presidência da instituição, nos termos de seu Estatuto”, que obteve taxa de comparecimento às urnas de 82,1% (4415 servidores) e o seguinte resultado: em primeiro lugar, Nísia Verônica Trindade Lima, com 2.556 votos; em segundo lugar, Tania Cremonini de Araújo-Jorge, com 1.695 votos. O resultado da eleição foi homologado pelo Conselho Deliberativo da Fiocruz e encaminhado ao ministro da Saúde, Ricardo Barros, na expectativa do referendo ao resultado do pleito e nomeação da vencedora das eleições como presidenta da Fiocruz. “A comunidade da Fiocruz, com apoio de Instituições Científicas Nacionais e Internacionais, espera que a candidata mais votada, com maioria expressiva dos votos, como tem sido a tradição da Fundação, assuma a Presidência da Fiocruz.”
“Devemos preservar o processo de gestão democrática e participativa da Fiocruz, tão duramente conquistado e construído por nossas instituições de ensino e pesquisa e que tem sido fundamental para tornar a Fundação Oswaldo Cruz referência na área de ciência e tecnologia nacional e internacionalmente. Tal processo, levando-se em consideração a história da Fundação, tem sido decisivo para uma condução equilibrada e eficaz da instituição, o que tem permitido alcançar resultados de destaque na promoção da saúde”. Leia na íntegra
Nota conjunta Abrasco e AbrES
Com o título “Fiocruz é uma instituição de Estado e deve ser respeitada”, a carta assinada conjuntamente pela Abrasco – Associação Brasileira de Saúde Coletiva e ABrES – Associação Brasileira de Economia da Saúde critica “o desrespeito do Ministério da Saúde ao processo interno de escolha para a presidência da Fiocruz” e reivindica a nomeação imediata da pesquisadora Nísia Trindade. “Pesquisadores e profissionais de saúde, já mais do que preocupados com a incapacidade de resposta do atual governo às necessidades básicas de saúde, se oporão veementemente a qualquer iniciativa que fira a dinâmica democrática estabelecida por instituições voltadas à produzir conhecimentos, ações e produtos estratégicos para a saúde pública”. […] “Ao contrário dos viciados processos de indicação de cargos para atendimento de interesses particulares, a Fiocruz vem se orientado pelo aprimoramento da participação permanente de seu corpo profissional em prol dos direitos de todos”. […] Uma instituição de Estado não pode se tornar objeto de barganhas imediatistas, de campo de prova de idiossincrasias político-partidárias”. Leia na íntegra
Nota Cebes e AbrES
A nota assinada pelo Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES) e Associação Brasileira de Economia da Saúde (ABrES) repudia a possível nomeação da candidata derrotada à presidência da Fiocruz. “Deve ser pontuado o precedente criado por essa arbitrariedade praticada contra a Fiocruz nos processos democráticos e na autonomia universitária conquistados por nossas instituições de ensino e pesquisa. Por outro lado, e não menos importante, é preciso ressaltar o papel estratégico da Fiocruz na implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) tanto como formadora de recursos humanos como na produção de conhecimento, pesquisa e desenvolvimento tecnológico”. Leia na íntegra
Carta da Ufba à Fiocruz
Em carta endereçada ao atual presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, o reitor João Carlos Salles ressaltou a parceria das duas instituições no desenvolvimento de projetos de pesquisa em saúde e na manutenção de um programa comum de pós-graduação, e demonstrou preocupação sobre a possibilidade da não nomeação de Nísia Trindade, “profissional respeitada, dona de uma trajetória brilhante, afirmada em três décadas de dedicação à Fiocruz, sendo também uma parceira constante no diálogo da Fiocruz com a UFBA”. “Esse resultado foi homologado pelo Conselho Deliberativo da Fiocruz, de sorte que toda a comunidade científica do país, que bem sabe a importância de procedimentos democráticos de consulta, só pode aguardar o referendo do governo”. Leia na íntegra
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