Aniversário da Constituição de 1988: Confira discurso de Ulysses Guimarães
Autor: Equipe de Redação
Publicado em: 4 de outubro de 2016
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022
“A Constituição, com as correções que faremos, será a guardiã da governabilidade. A governabilidade está no social. A fome, a miséria, a ignorância, a doença inassistida são ingovernáveis. Governabilidade é abjurar o quanto antes uma carta constitucional amaldiçoada pela democracia e jurar uma constituição fruto da democracia e da parceria social. A injustiça social é a negação e a condenação do governo.”
O trecho acima foi extraído de um discurso do presidente da Assembleia Nacional Constituinte, o então deputado federal Ulysses Guimarães, proferido em 27 de julho de 1988, em resposta aos ataques do bloco parlamentar de direita autodenominado “Centrão”, e do presidente da República na época, José Sarney, que argumentavam que o texto em fase final de aprovação levaria o país à ingovernabilidade. Em pronunciamento de 28 minutos em cadeia nacional de rádio e televisão, Sarney afirmou que o Brasil corria o risco de “tornar-se ingovernável nas empresas, nas relações de trabalho, nas famílias e na sociedade”. Leia mais aqui.
Vinte e oito anos após a promulgação da Constituição Federal Brasileira, em 5 de outubro de 1988, somam-se iniciativas que ameaçam direitos sociais e individuais assegurados constitucionalmente, seja através da aprovação de emendas e leis complementares, de mecanismos como o ADCT – Ato das Disposições Constitucionais Transitórias ou da ausência de regulamentação de pontos relevantes para o pleno exercício de garantias fundamentais. Para marcar o aniversário da Carta Magna e a necessidade de refletir sobre suas lacunas e lutar contra os retrocessos, o Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS) reproduz o histórico discurso de Ulysses Guimarães. Confira!
DISCURSO DO DEPUTADO ULYSSES GUIMARÃES, PRESIDENTE DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE, EM 05 DE OUTUBRO DE 1988, POR OCASIÃO DA PROMULGAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL
Ulysses Guimarães
Estatuto do Homem, da Liberdade, da Democracia.
Dois de fevereiro de 1987: “Ecoam nesta sala as reivindicações das ruas. A Nação quer mudar, a Nação deve mudar, a Nação vai mudar.” São palavras constantes do discurso de posse como Presidente da Assembléia Nacional Constituinte.
Hoje, 5 de outubro de 1988, no que tange à Constituição, a Nação mudou.
A Constituição mudou na sua elaboração, mudou na definição dos poderes, mudou restaurando a Federação, mudou quando quer mudar o homem em cidadão, e só é cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê e escreve, mora, tem hospital e remédio, lazer quando descansa. Num país de 30.401.000 analfabetos, afrontosos 25% da população, cabe advertir: a cidadania começa com o alfabeto.
Chegamos! Esperamos a Constituição como o vigia espera a aurora. Bem-aventurados os que chegam. Não nos desencaminhamos na longa marcha, não nos desmoralizamos capitulando ante pressões aliciadoras e comprometedoras, não desertamos, não caímos no caminho. Alguns a fatalidade derrubou: Virgílio Távora, Alair Ferreira, Fábio Lucena, Antonio Farias e Norberto Schwantes. Pronunciamos seus nomes queridos com saudade e orgulho: cumpriram com o seu dever.
A Nação nos mandou executar um serviço. Nós o fizemos com amor, aplicação e sem medo. A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito: rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio, o cemitério.
A persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia. Quando, após tantos anos de lutas e sacrifícios, promulgamos o estatuto do homem, da liberdade e da democracia, bradamos por imposição de sua honra: temos ódio à ditadura. Ódio e nojo.
Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações, principalmente na América Latina.
Assinalarei algumas marcas da Constituição que passará a comandar esta grande Nação.
A primeira é a coragem.
A coragem é a matéria-prima da civilização. Sem ela, o dever e as instituições perecem. Sem a coragem, as demais virtudes sucumbem na hora do perigo. Sem ela, não haveria a cruz, nem os evangelhos. A Assembléia Nacional Constituinte rompeu contra o establishment, investiu contra a inércia, desafiou tabus. Não ouviu o refrão saudosista do velho do Restelo, no genial canto de Camões.
Suportou a ira e perigosa campanha mercenária dos que se atreveram na tentativa de aviltar legisladores em guardas de suas burras abarrotadas com o ouro de seus privilégios e especulações.
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