#Abrascão2022 – Ainda há muito o que descobrir: Covid longa é multissistêmica e precisa de investimento em pesquisa

Autor: Inês Costal
Publicado em: 23 de novembro de 2022
Atualizado em: 23 de novembro de 2022

 

Multissistêmica e com demandas de abordagem multidisciplinar e integrada, a Covid longa e seus desafios foram objeto de debate no #Abrascão2022 – 13º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva. Com a coordenação de Karen Friedrich, integrante do GT Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), participantes da mesa-redonda foram unânimes ao apontar que a síndrome é complexa e que para sua compreensão, é preciso mais dados e mais pesquisas.

Com indicações de tempo diferentes feitas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo CDC – Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, a Covid longa é caracterizada pelo surgimento ou persistência de sintomas a partir de três ou quatro meses após a fase aguda da Covid-19. A gama diversificada de sintomas e sinais abrange alterações cardiovasculares, gastrointestinais, dermatológicas, endocrinológicas, neuropsiquiátricas, respiratórias, musculares/articulares e renais. Enquanto alguns dados apontam maior prevalência entre indivíduos que passaram por internação hospitalar, outros indicam que há predominância entre casos leves. Com muito ainda a ser descoberto, a Covid longa tem sua evolução a partir da fase aguda relacionada a fatores como as diferentes variantes do vírus, a vacinação, características da população, ocorrência de internação, principalmente em UTI.

Coordenadora do projeto Neurocovid, Clarissa Yasuda apresentou estudos publicados em revistas científicas que apontam a presença de sintomas relacionados à Covid-19 até dois anos após a fase de infecção aguda, tanto em casos leves quanto os de hospitalizados. A pesquisa conduzida com bancários constatou persistência de cansaço/fadiga, alterações do olfato e do paladar, ansiedade, falta de ar, problemas de memória, dificuldades com atividades diárias, dor nos olhos, sonolência durante o dia e sintomas depressivos entre os entrevistados, com redução da capacidade de trabalho, associada a vários sintomas. 

Uma nova avaliação, dois anos depois da fase aguda, apontou que houve melhora nos casos de ansiedade e depressão, mas manutenção de índices ruins quanto à capacidade de trabalho. Por sua vez, a avaliação neuropsicológica mostrou que a linguagem foi um dos pontos mais afetados, assim como a memória. A análise de neuroimagem revelou alterações sutis na massa cinzenta e alteração da conectividade cerebral. Para a pesquisadora, é preciso pensar no impacto econômico que a Covid longa terá no país e realizar mais estudos, principalmente relacionados ao que está acontecendo com os trabalhadores.

Como estruturar a rede de saúde?

Médico assistente do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, Ubiratan de Paula questionou a quantificação de recuperados da Covid-19 feita pelo Ministério da Saúde, afirmando que muitos estão recuperados da fase aguda, mas não da fase crônica da doença. Diante dos casos de Covid longa que têm sido identificados em estudos, o docente da USP recomendou que os pacientes em recuperação de Covid devem ser orientados e acompanhados quanto ao risco de diabetes e eventos cardiovasculares, com avaliação periódica de internados quando a sintomas e sinais de Covid longa e cuidados especiais com os imunossuprimidos. 

O médico indicou a necessidade de criação de um fluxo no qual os serviços de internação informem às Unidades Básicas de Saúde (UBS) sobre a alta de pacientes internados pela Covid-19, para que sejam realizadas visitas a domicílio. Também, a organização de centros e grupos multidisciplinares para evitar referenciamentos demorados para atendimento a esses pacientes. O docente ressaltou a importância de uma abordagem multidisciplinar para a Covid longa, considerando que a doença provoca prejuízos físicos, mentais, emocionais, sociais e econômicos. O apoio por parte da previdência social deve ser viabilizado com o registro como doença relacionada ao trabalho nas categorias com risco e avaliação das sequelas para indenizações.

Sinalizando a falta de estimativas sobre o tamanho do problema da Covid longa no país, assim como da demanda e do uso de serviços de saúde relacionados, Margareth Portela, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e integrante do Observatório Covid-19 da Fiocruz, colocou em questão como avaliar as necessidades relacionadas aos serviços de saúde diante da complexidade de atribuição de causalidade entre sintomas e a Covid. A docente afirmou que o Brasil está atrasado nas questões relacionadas à síndrome e precisa que haja financiamento para realização de estudos.

Enfatizando que uma doença sistêmica pede cuidados sistêmicos, Portela enumerou demandas relacionadas à Covid longa, que envolvem a oferta de serviços de referência de avaliação multidisciplinar integrada, com suporte coordenado pela atenção primária à saúde (APS) e acesso a serviços comunitários, de saúde mental e de reabilitação, que são gargalos. Além do foco na APS, a pesquisadora destacou que o cuidado em saúde deve ser trabalhado considerando o autogerenciamento, que compreende a construção de habilidades para que pacientes ou cuidadores estejam aptos para tomar decisões sobre os processos de adoecimento.

 

Produção de indicadores sobre populações vulneráveis precisa ser prioridade

Ao olhar para a situação das populações vulneráveis, a professora Edna Maria Araújo, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), ressaltou as dificuldades para achar estudos e dados sobre Covid longa nessas populações, grupo que tem mais doenças crônicas, comorbidades e exposição a se contaminar. Os dados sobre população negra e Covid aguda, oriundos de artigos dos Estados Unidos, do Brasil (leia aqui  e aqui) e de produções do GT Racismo e Saúde da Abrasco, apontam como a doença atingiu predominantemente grupos em situação de vulnerabilidade, ratificando o racismo estrutural/institucional. 

A pesquisadora reforçou que determinantes sociais como gênero, raça/etnia, educação, ocupação e transporte público contam e que é preciso reconhecer as desvantagens históricas a que essas populações estão submetidas também no caso da Covid longa. As barreiras para a equidade em saúde são tanto econômicas quanto geográficas, observando que essas populações vivem em áreas mais carentes de serviços de saúde e com mais dificuldades de acessos a cuidados de saúde. Para a doutora em Saúde pública, a coleta de dados clínicos e epidemiológicos públicos, transparentes e centrados no paciente e em indicadores de desigualdade deve ser prioridade nacional, considerando os determinantes sociais da saúde. 

O 13º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva segue até o dia 25 de novembro, no Centro de Convenções de Salvador (BA). 





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