7º CBCSHS: Múltiplos olhares se encontram em primeiro Grande Debate

Autor: Equipe de Redação
Publicado em: 11 de outubro de 2016
Atualizado em: 4 de janeiro de 2022

O primeiro Grande Debate do 7º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (7º CBCSHS) da Abrasco – Associação Brasileira de Saúde Coletiva, que aconteceu ontem, dia 10, reuniu um sociólogo, um filósofo e um sanitarista para discutir o tema do evento: “Pensamento Crítico, Emancipação e Alteridade: Agir em Saúde na (A)Diversidade”. Paulo Henrique Martins (UFPE), Kenneth Camargo Jr. (UERJ) e Luiz Passos (UFMT) apontaram questões para discussão do tema em diferentes frentes de análise.

 

Paulo Henrique Martins, docente da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), problematizou a formação de intelectuais brasileiros, chamando atenção para elementos como a centralidade do pensamento europeu, que é aceito como um pensamento universal. O professor destacou que os campos sociológicos na região da América Latina seguiram uma orientação eurocêntrica e que a colonialidade dos saberes fez com que as teorias europeias se reproduzissem de norte a sul e se tornassem centrais mesmo em países com perfis completamente diferentes, tornando subalternos os atores, o saber e as experiências locais. Para Martins, é necessário considerar o referencial teórico metodológico latino-americano e nos reconhecer como produtores de saber.

Segundo o sociólogo, um efeito fundamental dessa colonialidade foi considerar o crescimento econômico como norteador do desenvolvimento social nos países não-europeus, com consequências negativas para o meio ambiente, produção de desigualdades e aumento da violência.

 

O sanitarista Kenneth Camargo (UERJ) trouxe para o debate exemplos de questionamentos, desconstruções e novas construções possíveis diante de ideias e noções consideradas hegemônicas. O pesquisador citou discussões no âmbito da saúde que se beneficiaram dessa perspectiva de desconstrução, como a desmedicalização da homossexualidade, que passou a ser considerada mais uma forma de existir no mundo, tendo em vista a existência de diferentes modos de se habitar os corpos, e a desmistificação da saúde mental com a desconstrução de um aparato discursivo em torno do tema.

 

Camargo falou também sobre a relação entre ciência e política e como a dinâmica na qual uma se alimenta, enfrenta e desafia a outra deve persistir. Para ele, houve uma substituição da discussão política pela discussão da política econômica. “A discussão sobre direitos, justiça social e diversidade é substituída pela discussão sobre como se fecha a conta, sempre seguindo uma única perspectiva econômica. Essa substituição se dá como se essa perspectiva tivesse vencido algum debate acadêmico quando a gente sabe que ela foi praticamente imposta”. O sanitarista afirmou ainda que as teorias que se apresentam como definitivas estão sendo cooptadas pela direita e que os questionamentos são ignorados. “Temos que ter um pensamento crítico sobre a própria crítica”.

 

Diante da conjuntura de ameaças ao SUS e à democracia, Kenneth Camargo afirmou que “é hora de retomar a militância. A gente passou por um momento em que achamos que tínhamos conquistado uma série de coisas dentro do aparelho de Estado, que as políticas estavam resolvidas, mas agora vimos que não. […] Se normalizou a barbaridade na política. O xingamento, até a agressão física, entraram no vocabulário político. Então é preciso quase um novo processo civilizatório”. Para ele, “se há alguma resposta possível para os problemas que vivemos hoje ela passa pelo diálogo, pela conversa, então o papel de mediação é fundamental”.

 

O filósofo Luiz Passos (UFMT) destacou em sua fala o papel subalterno dado às mulheres, que implica “o desaparecimento da mulher na sua dignidade”. Para Passos, “é fundamental, para além da busca de nos acertar entre nós, que a gente consiga se acertar com as coisas que estão no lixo, à margem, fora dos direitos”. O pesquisador chamou atenção para um processo de exclusão de diferenças. “A exclusão permanente de tudo que diverge não pode se prestar à universalização. É preciso buscar uma universalidade no diálogo com a diversidade”.

 

O atual momento de crise e as medidas tomadas pelo atual governo, como a PEC 241, aprovada ontem à noite em primeiro turno na Câmara dos Deputados, foi motivo de discussão. “O povo brasileiro está sendo judiado e massacrado. E quem está no governo faz isso com muita maldade. Eu aguardo com muita esperança aquilo que não aparece, que ainda estou por ver, porque aquilo que já vi é desesperador”, desabafou o filósofo. 





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