7º CBCSHS: Abertura é marcada por reflexões sobre a crise
Autor: Equipe de Redação
Publicado em: 10 de outubro de 2016
Atualizado em: 3 de janeiro de 2022
Começou nessa segunda, 10 de outubro, o 7º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (7º CBCSHS) da Abrasco – Associação Brasileira de Saúde Coletiva. O evento acontece em Cuiabá (MT), na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), de 9 a 12 de outubro de 2016, com o tema “Pensamento crítico, emancipação e alteridade: agir em saúde na (ad)diversidade”. A solenidade de abertura, realizada no domingo à noite, dia 09, contou com a presença de representantes institucionais que apoiaram a organização do Congresso. A 7ª edição do CBCSHS é marcada por autonomia em relação ao governo federal. Nessa segunda, a conferência de Paulo Henrique Martins deu início à programação científica do Congresso.
A solenidade contou com as presenças de Tatiana Engel Gerhardt, presidenta do Congresso; Reni Barsaglini, integrante da Comissão Organizadora local; Maria Salete Ribeiro, secretária adjunta de políticas e regionalização da Secretaria de Saúde do Estado (SES-MT); Gisela Bruken, diretora do Instituto de Saúde Coletiva da UFMT; Joaquim Molina, representante da Organização Pan-americana de Saúde no Brasil; e Gastão Wagner, presidente da Abrasco, além de outros representantes.
Na solenidade, o presidente da Abrasco, Gastão Wagner, afirmou que em anos anteriores os congressos da Abrasco foram realizados com apoio financeiro do governo federal, mas para a organização do CBCSHS foi feita uma “transição abrupta de independência em relação ao Estado, em relação ao governo”. Gastão destacou a necessidade de reflexão sobre a atual conjuntura: “Nós estamos passando uma situação difícil no Brasil, no mundo. Um avanço de posições conservadoras, de uma cultura da violência, e eu vou falar sobre nós, sobre o que nós podemos fazer com isso”. Para Gastão, um desafio para a Saúde Coletiva e para as Ciências Sociais e Humanas é fazer a difusão da ciência tanto entre os cientistas como para os trabalhadores, sociedade civil e a imprensa de forma que a produção estimule a reflexão e combata ideias conservadoras, elitistas e contra o próprio povo. O presidente da Abrasco citou a PEC 241, que segue em tramitação na Câmara dos Deputados, como ponto importante de discussão. A abertura foi marcada também por gritos de “Fora Temer” dos/as participantes.
Conferência faz análise sociológica da crise
A programação científica do Congresso foi iniciada com a conferência de Paulo Henrique Martins, doutor em Sociologia e professor titular da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que apresentou elementos para uma radiografia da crise atual. O pesquisador fez reflexões sobre a crise como um deslocamento epistêmico e desregulação econômica, política e moral. Paulo Henrique afirmou que a crise é um fenômeno nacional, internacional e transnacional, sistêmico e causado em parte pela desorganização do capitalismo moderno. “Estamos em um momento de cortes de políticas sociais e a mídia não coloca em questão a discussão da dívida pública”.
Segundo o sociólogo, a desigualdade social aumentada e a financeirização do sistema econômico não permitem mais uma justificativa ideológica para a economia de mercado ser compreendida como algo natural e produto do progresso econômico. Paulo Henrique discutiu o caráter econômico, político e moral da crise no Brasil, que apresenta elementos como autonomização do poder econômico e enfraquecimento do poder estatal, com incapacidade de enfrentar grandes empresas; descrença dos segmentos pobres e assalariados com relação aos discursos de utopias modernas de bem estar material e consumo irrestrito; onda de frustração social, entre outros.
A crise como deslocamento epistêmico
Para Paulo Henrique, a crise epistêmica tem relação com a falência do conjunto de práticas discursivas e regimes de verdades que definiram um modo particular de pensar e fazer a sociedade moderna ocidental nascida na Europa. Tem relação também com a desorganização do lugar a partir do qual se produz um conjunto de entendimentos sobre a realidade comum. O pesquisador afirmou que há um esgotamento do modelo de desenvolvimento e chamou a atenção para os custos sociais e ambientais deste processo.
As Epistemologias do Sul foram destacadas na análise de Paulo Henrique por buscar a exploração das perspectivas de construção de um conhecimento ao mesmo tempo teórico e prático. “Estas epistemologias levam em conta a importância de contextualizar os processos históricos e sociais de modo a revelar o conjunto de memórias e experiências que foram negligenciadas, abandonadas e reprimidas”.
Na apresentação, o pesquisador abordou também a descontextualização do saber acadêmico na área da sociologia: pesquisadores/as afastados/as dos saberes latino-americanos, muito dependentes dos recursos governamentais e mais próximos de referenciais europeus e norte-americanos. Segundo ele, as ciências da saúde seriam uma exceção por causa do alinhamento entre teoria e prática.
O sociólogo afirmou que o Sistema Único de Saúde (SUS) é uma iniciativa exemplar para se pensar novos paradigmas em saúde pública a nível latino-americano e mundial. “O SUS é uma experiência institucional inovadora num contexto político conservador”. Para Paulo Henrique, o SUS é um avanço como proposta política e normativa, mas há limites por ser um projeto de liberação de novos direitos coletivos e públicos em um contexto de desorganização da plataforma republicana que baseou sua criação.
Deixe um comentário