4ª Oficina do OAPS: Aspectos teóricos-metodológicos e horizontalização do conhecimento marcam 1º dia

Autor: Inês Costal e Patrícia Conceição
Publicado em: 29 de novembro de 2017
Atualizado em: 3 de janeiro de 2022

A abertura da 4ª edição da Oficina de Trabalho do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS), que acontece nos dias 29 e 30 de novembro, em Salvador, foi marcada por debates sobre as abordagens teórico-metodológicas da análise política em saúde, apresentações da produção científica e técnica e pelo clima de avaliação das ações desenvolvidas ao longo do projeto. O evento reuniu pesquisadores/as, estudantes e profissionais vinculados a diversas instituições de ensino e pesquisa brasileiras envolvidos na construção coletiva de conhecimento, estratégias de trabalho e acompanhamento crítico da conjuntura nos últimos quatro anos.

A mesa de abertura foi composta por Jairnilson Paim (ISC/UFBA), coordenador do projeto Análise Política em Saúde, Isabela Cardoso (ISC/UFBA), Ligia Vieira (ISC/UFBA) e Carmen Teixeira (ISC/UFBA), integrantes do Comitê Gestor do OAPS, e José Carvalheiro (IS/SES-SP), membro do Conselho Consultivo. Na abertura do evento, Isabela Cardoso, que coordena os eixos Trabalho & Educação na Saúde e Modelos de Gestão Hospitalar no SUS enfatizou a articulação e o trabalho em rede desenvolvido ao longo dos quatro anos de Observatório. Já Carvalheiro, em comentário sobre a criação e as perspectivas de futuro para o OAPS, metaforizou: “O Observatório é o acidente na paisagem da Saúde Coletiva que mais se destaca nos últimos anos”.

 

Ligia Vieira, que coordena o eixo Análise Sócio-Histórica de Políticas de Saúde, fez um balanço do projeto, ressaltando que os objetivos originais do Observatório – produzir pesquisa sobre políticas e analisar a conjuntura política – foram amplamente contemplados. Para a pesquisadora, é importante discutir a sustentabilidade e institucionalização do OAPS enquanto espaço de produção coletiva. Ao avaliar a trajetória do Observatório, a coordenadora do Centro de Documentação Virtual (CDV), Carmen Teixeira, apontou “a construção de uma forma de trabalho completamente diferente como um dos principais ganhos”.

Em seguida, Jairnilson Paim coordenou mesa-redonda com apresentação da pesquisadora Monique Esperidião (ISC/UFBA) e participação de Tatiana Wargas (Ensp/Fiocruz) como debatedora. Autora do trabalho “Análise política em saúde: síntese das abordagens teórico-metodológicas”, Esperidião iniciou a programação científica da oficina com uma exposição que teve como objeto o mapeamento, caracterização e análise crítica das abordagens teórico-metodológicas para a análise política em saúde.

 

Coordenadora do eixo Análise de Políticas de Saúde Voltadas para a Infância, Monique mostrou uma síntese das abordagens teórico-metodológicas em análise política em saúde, explorando o contexto de surgimento da análise de políticas públicas e, especificamente, das políticas de saúde, suas delimitações conceituais e principais objetos. Também apresentou um panorama de estudos desenvolvidos sobre o tema, incluindo uma breve descrição dos modelos de análise política em saúde, sínteses internacionais dos últimos cinco anos e estudos empíricos sobre o tema realizados no Brasil – este último foco principal do levantamento.

A pesquisadora detalhou as estratégias metodológicas para realização da busca de artigos no período de 2012 a 2017, a base de dados utilizada, os critérios de inclusão e exclusão e escopo dos trabalhos selecionados. Ao falar sobre os resultados, abordou aspectos como principais objetos e estratégias de pesquisa dos artigos que fizeram parte da revisão e a importância do exercício da reflexividade e explicitação do posicionamento dos autores. “Os caminhos investigativos para análise política em saúde podem ser os mais variados”, resumiu Monique, cuja sistematização identificou uma profusão de enfoques, teorias e modelos, que não podem ser facilmente condensados.

 

Convidada para debater o tema, a pesquisadora Tatiana Wargas elogiou o “esforço de localização dos referenciais, estratégias e perspectivas de estudos” e pontuou aspectos como a “disputa de narrativas e verdades por diversos campos que têm como objeto a análise de políticas”. Tatiana enfatizou a importância de compreender quais questões estes estudos de políticas têm tentado responder e quais projetos de sociedade estão em disputa. “Terminologias e diferenciações servem a um propósito e precisam ser enunciadas em seus propósitos”, defendeu.

 

Confira os vídeos da transmissão online do debate aqui e aqui.

 

Produções e diálogos
Nesta linha, Tatiana ressaltou que os projetos políticos implicam sempre disputas de hegemonia, com vencedores e perdedores, conflitos e consensos: “Embora o consenso seja necessário, sempre haverá discordâncias sobre como implementá-lo. […] É preciso reconhecer as rupturas e contradições onde estão os silenciamentos e apagamentos, estes são os resultados das disputas de hegemonia que muitas vezes deixamos de fora”. E complementou: “Não estou falando aqui de neutralidade, todo estudo é implicado e militante, mas problematizar as práticas não significa estar associado às práticas. É preciso olhar esse tensionamento ao analisar as políticas”. No encerramento da mesa redonda, Jairnilson Paim ponderou que este debate propicia entender política para além da intervenção, como um campo de conhecimento.

Na parte vespertina da programação, entrou em cena a OCAPS – “Oca do OAPS”, que reuniu coordenadores/as, pesquisadores/as e estudantes dos 12 eixos temáticos para apresentação de artigos, dissertações, teses, linhas do tempo e textos produzidos para o monitoramento das decisões governamentais relacionadas às políticas acompanhadas pelo Observatório. Carmen Teixeira, idealizadora do formato, explica que a organização foi pensada como uma taba de índios, cada eixo com um espaço para expor seus trabalhos confluindo para o centro. “Isso é uma espécie de horizontalização do conhecimento, não cria mais aquela hierarquia entre o pesquisador que está expondo e o público que está simplesmente assistindo. Na verdade, como o público também é composto por pesquisadores, cientistas, mesmo que sejam mestrandos, doutorandos, alunos de iniciação científica, você cria uma comunidade de diálogo mais democrática. […] Pessoas que estão juntas, trabalhando coletivamente para produzir conhecimento já há quatro anos”.

 

O primeiro dia da Oficina contou ainda com o lançamento do livro “Reforma Sanitária Brasileira e políticas farmacêuticas: 1976-2014”, de Tatiane Alencar (UEFS), e apresentação de documentários e vídeos produzidos pelo OAPS. Confira entrevista com Mario Testa e Leonardo Federico e documentário do Observatório voltado para gestores/as já disponíveis no canal do OAPS no Youtube.

 

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