3º CPPGS: Pesquisadores/as debatem estratégias de diálogo com a população na luta pelo direito à saúde
Autor: Inês Costal e Patrícia Conceição
Publicado em: 4 de maio de 2017
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022
A retomada da essência do movimento da reforma sanitária e o envolvimento e participação de outros atores na defesa do direito à saúde e na construção democrática de uma agenda de pesquisa marcaram o último debate do 3º Congresso de Política, Planejamento e Gestão em Saúde (3º CPPGS) da Abrasco – Associação Brasileira de Saúde Coletiva. Com o tema “Política Planejamento e Gestão em Saúde como práxis na saúde coletiva e no SUS”, o debate reuniu Carmen Teixeira (ISC/UFBA), Adolfo Chorny (ENSP) e Rosana Onocko (UNICAMP), com coordenação de Oswaldo Tanaka (USP). O 3º CPPGS foi realizado em Natal (RN), de 1º a 4 de maio, com o tema “Estado e democracia: o SUS como direito social”.
Carmen Teixeira, coordenadora do Centro de Documentação Virtual (CDV) e pesquisadora do eixo “Análise do Processo da Reforma Sanitária Brasileira no Período 2007 a 2016” do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS), abriu as apresentações do debate usando textos de autores-chave para a área de planejamento, política e gestão em saúde coletiva, como Ricardo Bruno e Edmundo Gallo. A pesquisadora explorou conceitos e análises dos autores, abordando também o que se relaciona com os “dilemas da reforma sanitária”. Carmen ressaltou a importância do movimento retomar suas origens, quando se ancorava em uma reforma progressiva. “Eu saio de congresso muito esperançosa. Tivemos ontem a reunião do fórum de entidades da reforma sanitária e o que mais se comentou foi a necessidade de estabelecer esse diálogo com outros movimentos sociais, encontrando pontos em comum para um projeto de sociedade que inclua a defesa do direito à saúde, do SUS, do SUS constitucional”.
Rosana Onocko, professora da Universidade Estadual de Campinas (DSC/FCM/Unicamp), se debruçou sobre a pesquisa em política e planejamento em saúde na apresentação “Relações entre políticas de incentivo à ciência e a área de políticas, planejamento e gestão de uma práxis”, recorte escolhido por acreditar que “o fazer científico é uma prática política” e “a produção na nossa área faz bem à saúde coletiva e à ciência brasileira”. A docente tocou em pontos como concepção de ciência, técnica e ética em pesquisa e as lógicas de construção de uma agenda de pesquisa. “Cadê a participação dos trabalhadores, militantes e usuários do SUS na discussão dessas agendas? É como se nós, pesquisadores, nos isolássemos desse conjunto, como se concorrêssemos entre nós, esquecendo que ‘quem vai pesquisar o quê’ é uma questão da dimensão do público”, criticou, ao defender um processo de constituição democrática em oposição ao que chamou de “lógica do freguês”, quando os temas de investigação são definidos pelos financiadores, sem ouvir e debater as demandas sociais.
Rosana questionou ainda os fatores de impacto utilizados para avaliar pesquisas e publicações – “a aplicabilidade não deveria ser considerada?”, a falta de financiamentos específicos para a área e o que seriam boas práticas de pesquisa. “Um colonialismo que a gente sofre é achar que boas práticas de pesquisa se definem por estatísticas. Acredito que nosso consenso de boas práticas precisa incluir outras vozes além dos experts, outros olhares e atores, não apenas para responder pesquisas, mas para propor questões”, problematizou.
Instigando a plateia com perguntas sobre o futuro do movimento da reforma sanitária, Adolfo Chorny (ENSP) fez reflexões sobre a conjuntura e o desafio de multiplicar a potência do movimento. “Como vamos nos comunicar com o resto da população? Como falar com a pessoa comum com esse linguajar? É uma linguajar hermético, para nós. Como isso se difunde? Como vamos formar opinião e esforços se não conseguimos nos comunicar?”, indagou. Em suas considerações, o pesquisador criticou a PEC241/55 – “vai congelar o mundo por 20 anos” –, o poder concedido aos médicos, a falta de autonomia do trabalho das enfermeiras e alertou para a necessidade de ser vigilante com o que foi construído pela RSB até então. Chorny afirmou que os presentes devem se posicionar frente aos desafios da conjuntura e pensar em estratégia e táticas: “Qual a nossa estratégia? Fazer declarações? Ir para a rua gritar 3 vezes ‘Fora Temer’ e voltar para nossas casas para ver televisão? Escrever mensagens no facebook?”, ironizou. Na conclusão de sua fala, o sanitarista reiterou a importância de atrair mais pessoas para a luta pelo direito à saúde: “Nós não somos os donos da verdade, temos que construí-la em conjunto com as classes exploradas. Não será com papel que vamos mudar a realidade”.
Ao final das apresentações, Oswaldo Tanaka, responsável pela coordenação do debate, arrematou: “Para construir nosso futuro precisamos ser cada vez mais vigilantes e trazer para nosso campo outros interessados, mais importantes do que nós, para construir esse direito”.
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