Entrevista do mês de setembro: Itamar Lages

Autor: Inês Costal e Patrícia Conceição
Publicado em: 23 de setembro de 2026
Atualizado em: 6 de outubro de 2026

“Os adversários e até inimigos da Reforma Sanitária sempre viram a nossa utopia como distopia. O direito à saúde não é universalmente uma utopia. Quem é inimigo do SUS, quem é adversário do SUS, acha isso uma distopia”, analisa Itamar Lages, professor, enfermeiro sanitarista, mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco e entrevistado do mês de setembro do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS). Militante histórico da Reforma Sanitária Brasileira, Itamar atua como professor adjunto da Universidade de Pernambuco (UPE), instituição na qual recebeu o título de doutor honoris causa em 2025 e onde coordena o Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família do Campo. Na entrevista, ele relembra as mobilizações em torno das conferências de saúde, sua importância e contradições, destacando que o movimento continua vivo e em curso. Destaca também o papel do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) na formação política e a relevância da organização coletiva na luta por direitos. Um dos convidados da 3ª etapa do ciclo de debates “Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS: 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, que acontecerá em Salvador, nos dias 28 e 29 de setembro, o professor apontou os principais desafios colocados para a militância social no atual cenário: “Conhecer radicalmente a conjuntura a partir de uma teoria revolucionária, que substitua o assistencialismo e os favorecimentos pelo direito. Uma teoria que faz do militante um agente desse processo. Ele não vai ser agente quando tudo estiver modificado, vai ser um agente da construção da mudança”. Boa leitura!

Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS): Você é um dos convidados da mesa “40 Anos de Conferências Populares de Saúde”, que integra a programação da terceira etapa do ciclo “Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS: 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde”, que acontecerá em Salvador, nos dias 28 e 29 de setembro. O que a história da Reforma Sanitária e da construção do Sistema Único de Saúde (SUS) ensina sobre a força da mobilização social para transformar políticas públicas? Você acredita que as contribuições das conferências populares na construção e na defesa do SUS são devidamente reconhecidas e respeitadas?

Itamar Lages: Eu vou completar 64 anos no final do ano, em novembro, e entrei em contato com o movimento da Reforma Sanitária quando era jovem, estava na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) fazendo o curso de Enfermagem e o processo se desenvolvia aqui no Recife, Pernambuco. Sou enfermeiro de formação, também sou sanitarista de formação e de prática profissional. E foi ali que alguns professores e professoras nos informaram sobre o processo da Reforma. Como eu fui da coordenação do diretório acadêmico, terminamos nos envolvendo na luta, junto com outros diretórios, o movimento nacional de estudantes de Enfermagem e outros estudantes.

Aquele movimento do final dos anos 1970, início dos 1980, foi muito forte no Recife. Vejo que ele mobilizou uma grande quantidade de pessoas, por exemplo, lembro do sindicato dos médicos, que era muito atuante naquela época e fazia muitas atividades pedagógicas. Lembro dos movimentos populares, de vários companheiros e companheiras que puxavam esses movimentos.

Tudo isso vinha junto com o movimento de reorganização político-partidário e alguns de nós continuamos apoiando esses movimentos, mais particularmente dentro do Partido dos Trabalhadores, e foi um processo muito intenso de mobilização, quando eu olho por um lado. Mas o mesmo Itamar Lages que estava entrando na Universidade Federal de Pernambuco, era também uma pessoa que morava no município de Jaboatão, na região metropolitana do Recife, uma área popular e muito pobre, que conhecia outras áreas muito pobres e que não ouvia necessariamente falar desse movimento.

Havia no movimento popular como um todo grupos que eram muito próximos. Por exemplo, do lado oposto ao que eu residia, na região de Casa Amarela, no Recife, tinha um movimento muito forte, tão forte que do bairro de Vasco da Gama saiu um ônibus para Brasília para participar da 8ª Conferência e essas pessoas não eram delegadas, não tinham feito inscrição, foram pela força da militância. Então, havia grupos populacionais que ouviam, que estavam mobilizados, mas também havia uma grande parte de grupos populacionais que não estavam mobilizados, não sabiam o que estava acontecendo, viviam seu cotidiano muito difícil do início/meados dos anos 1980, em uma situação econômica complicada.

Eu já estava na universidade e lembro, inclusive, dessas reflexões teóricas que fazíamos. Não obstante o Brasil estar em oitavo lugar na economia, seu povo vivia de maneira difícil. Aqui no Nordeste, em Pernambuco, Recife, região metropolitana, isso foi uma realidade, [inclusive] na atenção à saúde. Eu tinha terminado o curso de técnico de Enfermagem em 1981 e, em 1982, comecei a trabalhar na rede privada, em 1984 no Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), e tive contato com problemas sérios, por exemplo, de difteria, sarampo e poliomielite.

[Só] depois certas leituras e compreensões vieram se concretizar em mim, que estávamos vivendo uma situação extremamente difícil, com doenças infecciosas, muita gente adoecendo de doenças crônicas degenerativas, problemas de causas externas muito elevadas e a situação econômica muito complicada. Esse cotidiano contribuía para que grandes grupos sociais nacionais não soubessem o que estava acontecendo. As pessoas que lidavam com o movimento da Reforma Sanitária em Recife, Pernambuco, não tinham condições para dar conta da militância.

Mas, mesmo assim, em Recife houve uma mobilização intensa com as chamadas comissões regionais, comissões locais de defesa do movimento da Reforma Sanitária e de implantação do SUS. Eu não diria que era um movimento contraditório, mas não foi um movimento que alcançou todo o Recife, que alcançou toda a região metropolitana. Uma pessoa como eu, que morava no bairro de Sucupira, Cavaleiro, uma região extremamente pobre e humilde, só tinha condições de saber disso porque estava no âmbito universitário. Então, é nesse bojo.

Os grupos que se desenvolvem a partir daí, os grupos de estudantes, particularmente, fizeram muita mobilização. Então, indo ao cerne da sua pergunta, eu entendo que as mobilizações pelo movimento da Reforma Sanitária, os movimentos em torno das conferências de saúde, contribuem sim para mobilizar, contribuem sim para intensificar a luta pelo direito à saúde, e trazem consigo, obviamente, muitas contradições.

“Entendo que as mobilizações pelo movimento da Reforma Sanitária, os movimentos em torno das conferências de saúde, contribuem sim para mobilizar e intensificar a luta pelo direito à saúde, e trazem consigo, obviamente, muitas contradições”

O movimento ainda hoje está em curso. Essa renovação com a Frente Pela Vida, por exemplo, tem sido muito importante. Me colocando como uma pessoa que está participando desse ator chamado movimento da Reforma Sanitária, contribuo decisivamente para que essas coisas ocorram. Por exemplo, quando houve a 2ª Conferência da Frente pela Vida, aqui em Recife, nós do núcleo Recife [do Cebes] nos juntamos com o Grito dos Excluídos e das Excluídas, fizemos um movimento em defesa da saúde, estivemos no ato de 7 de setembro e em um dos movimentos do VER-SUS [Projeto Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde], falando sobre essa mobilização.

Essa mobilização continua. Obviamente, nas épocas de conferência, principalmente, isso fica muito forte. Eu sinto que hoje, neste exato momento, a gente já devia estar muito mais mobilizado para a 18ª. Não esperar, por exemplo, que o Conselho Nacional de Saúde dê um ponto de partida, a largada. A gente já deveria estar presente. Mas imagino que lá para janeiro vamos estar muito mais mobilizados e o que eu vejo [a partir] dos anos e conferências anteriores é que o Cebes Recife, do qual eu faço parte, deve ser convidado para muitas frentes de luta e momentos de formação política.

O que a gente gosta mesmo aqui no Recife, como os outros núcleos, é de ir para comunidades periféricas. Ou seja, aquela coisa que a gente sentia falta e tenta reverter hoje. Vamos falar com as pessoas simples, que às vezes têm mais dificuldades de explanar sobre problemas conjunturais e falam mais do problema do cotidiano, porque esses problemas são muito fortes, não é? Por exemplo, a fila de espera, a medicação que falta. E a gente tem a responsabilidade de falar sobre como esses problemas estão estruturados na nossa sociedade. Então, sim, ocorre uma mobilização, mas ocorre com certos limites. Sempre ocorreu com limites e atualmente continua ocorrendo com limites.

Recentemente, em Vitória de Santo Antão, que é próximo do Recife, fui convidado para uma conferência e uma pessoa me perguntou sobre o passado porque sabia que eu venho nessa luta há algum tempo. Olha, eu não tenho muita saudade do passado e a gente enfrentava tantas dificuldades quanto hoje aqui, sabe? Os adversários e até inimigos da Reforma Sanitária sempre viram a nossa utopia como distopia. O direito à saúde não é universalmente uma utopia. Quem é inimigo do SUS, quem é o adversário do SUS, acha isso uma distopia.

“Os adversários e até inimigos da Reforma Sanitária sempre viram a nossa utopia como distopia. O direito à saúde não é universalmente uma utopia. Quem é inimigo do SUS, quem é o adversário do SUS, acha isso uma distopia”.

A pergunta é a seguinte: Como assim todos têm direito? Por que não tem direito só a um pacote das ações da atenção primária? Como assim ter atenção especializada? Ontem, quando saí da sala de aula, fiquei um tempo na frente do Hospital Oswaldo Cruz, que é um orgulho para gente, é um hospital da Universidade de Pernambuco (UPE), 100% SUS, como são também os dois outros hospitais da UPE: o pronto socorro cardiológico e o Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, que tem como central a sua maternidade. Tenho orgulho de fazer parte dessa família da UPE.

Por exemplo, a maternidade da UPE tem inclusive um trabalho sobre aborto legal, a proteção ao direito da mulher. O pronto-socorro cardiologista opera com procedimentos muito específicos, complexos e de elevada potência, tanto terapêutica quanto de investimento financeiro. E isso investido para a saúde do povo é extremamente importante. Aí, quando eu estava sentado na frente do Hospital Oswaldo Cruz, uma pessoa estava me contando que é do sertão, tinha vindo visitar um irmão dele e estava encantado que o irmão fez endoscopia, proctografia. Eu não perdi a oportunidade de dizer: “Venha para esse lado de cá”. Porque nesse exato momento, enquanto algumas empresas de televisão perguntam a alguns candidatos se não vão cortar o financiamento do SUS para equilibrar despesas e proteger a dívida pública, estão falando para cortar a possibilidade, por exemplo, do Programa Agora Tem Especialistas, implantado lá no Oswaldo Cruz para pessoas que vivem no sertão de Pernambuco, pessoas que não teriam outro acesso. E olhe que muita gente ainda tem dificuldade de acesso.

Então, é o fervor desse movimento [que precisamos manter], ainda que a gente não tenha certas condições para estar espalhando isso de maneira mais intensa, na mesma força e na mesma dimensão que os inimigos têm. Mas a gente tem feito e continua mobilizando.

Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS): Você costuma citar o Cebes, que completou 50 anos em 2026, como fundamental para sua formação política, antes mesmo de atuar diretamente na entidade. Pode falar sobre essa experiência, incluindo a atuação recente na Diretoria Executiva, e como ela tem impactado sua construção enquanto sanitarista e militante?

Itamar Lages: Eu conheci o Cebes no início dos anos 80, em 1982/1983. Aqui no Recife já tinha uma militância. Uma companheira querida que tinha sido presidente do sindicato dos médicos, Bernardete Antunes, foi fundadora do Cebes aqui no Recife. Ela e José Augusto Barros, que foi meu professor, era quem repassava para a turma muitos panfletos, alguns deles datilografados na época, sobre todas as questões relacionadas ao movimento da Reforma Sanitária. E foi aí que eu fui tomando conhecimento. Pegando aquelas aulas que eram publicadas, as revistas jornalísticas, que inclusive ficavam na biblioteca da universidade federal, então o professor do departamento de Medicina Social que dava aula para a gente tinha esse material, que ajudava em nossa formação. Misturando esse acontecimento com o surgimento de partidos de esquerda, fora daquela ordem da ditadura – e estou falando mais especificamente do Partido dos Trabalhadores -, esses materiais ajudaram a me formar.

Por exemplo, coisas que tocam a alma: lendo esses textos eu aprendi a ser adversário do termo indigente. Como o termo indigente desumaniza as pessoas. Ele é, por natureza, principalmente na prática cotidiana, oposto ao direito. E quando lhe digo que toca a minha alma é porque quando minha mãe foi para a maternidade para eu nascer, ela foi considerada indigente. Nenhuma mulher deveria estar nesse processo, né? Hoje uma das alegrias é que essa maternidade pública do SUS tem um programa de residência de obstetrícia. Tem um programa de acolhimento maravilhoso e fica num bairro muito popular.

“Aprendi a ser adversário do termo indigente. Como o termo indigente desumaniza as pessoas. Ele é, por natureza, principalmente na prática cotidiana, oposto ao direito”

Mas bem, esse material do Cebes me forma porque tem documentos, tem artigos numa linguagem que nós compreendemos e que podíamos… Como você está falando aí da Bahia e mencionou o nome do professor Jairnilson Paim, até hoje eu retomo o texto de Paim quando ele faz crítica ao risco da municipalização. Não é contra a municipalização, mas aos riscos, a possibilidade de que desse processo de municipalização a gente pudesse ter problemas sérios que são contrários ao SUS.

Tem uma certa prática de coronelismo, e você vê inclusive nos livros de Guimarães Rosa, do Norte de Minas Gerais e pega todo o Nordeste. Esses coronéis governam os municípios e impingem ao SUS certas marcas pessoais. Tudo isso para dizer que eu vou compreendendo isso com a literatura do Cebes. Por exemplo, outro conceito importante, a diferença entre universalidade e cobertura. Por que a gente pode e deve insistir na universalidade da atenção à saúde? Os problemas ligados à saúde mental, os problemas ligados à organização do sistema… É essa literatura do Cebes que veio me alimentando, especialmente, e alimentando uma geração muito grande.

E dá um prazer muito grande voltar a algumas bibliotecas, inclusive a biblioteca da Faculdade de Enfermagem da UPE, onde trabalho, do bairro de Santo Amaro aqui no Recife, tem exemplares ainda naquela folha parecendo de papel jornal. É bom saber, por exemplo, que uma das pessoas que datilografou esses textos foi o querido Heleno Rodrigues, um dos grandes mestres.

O Cebes se renovou muito. Um momento muito especial do Cebes aqui no Recife foi quando a nossa companheira, que conheci como estudante de fisioterapia e chegou a trabalhar no Ministério da Saúde, Liu Leal, estava ajudando o Cebes local a se mobilizar, na mesma época em que Sonia Fleury estava liderando o movimento de refundação do Cebes.

Hoje com todas essas lições, é muito importante ver como o Cebes apoia a Abrasco, a Rede Unida, como está por dentro da Frente pela Vida. Independente da condição de estar na diretoria, eu penso que tenho contribuído de certa maneira com o movimento da Reforma Sanitária a partir desse lugar do Cebes.

Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS): O que a vivência da militância em diferentes áreas tem te mostrado sobre a importância da organização coletiva para enfrentar desigualdades e ampliar direitos e sobre as diferentes formas de participação social?

Itamar Lages: Eu acho que uma das nossas falhas é justamente na participação social. Quando eu digo “nós” falo de nós militantes mais organizados, nós orgânicos do movimento da Reforma Sanitária. Uma das coisas que a gente não tem feito, e sei que não faz por falta de condições, tem pouca gente para fazer, é atividade de participação social.

Aqui no Recife, por exemplo, em 1994, participei como integrante da Universidade de Pernambuco da criação de unidades de Saúde da Família em que houve conflitos. A população reclamava que ia perder seu centro de saúde porque naquele centro havia quatro médicos e ia passar a ter um médico apenas. Mas quando a gente chega junto dessas populações e conversa, tem paciência, sem nenhum estrelismo acadêmico, senta na frente das pessoas, arria os ombros e assume a atitude de quem, de fato, está ouvindo, as pessoas falam. Por vezes até xingam porque identificam você com o poder, até que depois há um verdadeiro desabafo.

Uma pessoa, por exemplo, que está cuidando de um filho ou filha com problemas com uso abusivo de drogas, que está com doença crônica, e não sabe para quem recorrer. Como é que essa pessoa com um filho adolescente sendo um agente do tráfico organizado e, ao mesmo tempo, sendo alguém que usa droga de maneira abusiva, como ela não vai cair no conto das comunidades terapêuticas? Ainda mais com um discurso religioso alienante. Para ela, aquele discurso não é alienante, é um discurso de acolhimento.

Mas quando a gente senta e ouve a pessoa, dá tempo até de ela fazer xingamentos, voltar e conseguir estabelecer uma conversa [dizendo] que aquela unidade vai oferecer serviços à população e a população não vai ser apenas uma consumidora, aí a coisa muda, viu! Eu estou tendo experiências muito boas, já faz um tempo, em quilombos rurais. Quando você senta com a comunidade e ela compreende o processo, para que serve a Saúde da Família, para que serve determinados equipamentos, ela não é só consumidora. Porque é esse um dos grandes riscos: é contra o princípio da participação social, ao oferecer qualquer benefício de política social, que ele seja entendido apenas como entrega, como delivery. Quem consome uma coisa agora, vai querer consumir daqui a 10 minutos, daqui a um mês, tá certo? E na hora que não for entregue, a pessoa vai reclamar. Mas quando a pessoa compreende o processo e se sente como autora dele, é outra coisa.

“É contra o princípio da participação social, ao oferecer qualquer benefício de política social, que ele seja entendido apenas como entrega, como delivery. Quem consome uma coisa agora, vai querer consumir daqui a 10 minutos, daqui a um mês, tá certo? E na hora que não for entregue, a pessoa vai reclamar”

Como eu tenho conhecimento, aproveitei. Eu hoje estou com 32 anos na UPE, entrei em 94. Como eu sou uma pessoa que tem história de moradia, vivência, nascimento em lugares extremamente pobres, quando tenho que ajudar meus estudantes a estar nesses espaços, é como se eu voltasse para casa. Ainda hoje eu moro num espaço urbano que é muito precário de muitas coisas, mas é melhor do que outros.

Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS): Como sua atuação em entidades e movimentos sindical, de enfrentamento ao racismo e em defesa do SUS influencia sua prática como professor na Universidade de Pernambuco?

Itamar Lages: Quando me tornei professor em 1994, fui trabalhar na disciplina de Saúde Coletiva e, nas aulas práticas, fui para comunidades que são extremamente simples do ponto de vista do acesso aos insumos básicos que produzem saúde, e me reencontrei em casa. Porque essas pessoas que moram em comunidades extremamente pobres têm um alto teor de sensibilidade e, pelo olhar, pelo jeito, elas identificam os seus iguais.

Por exemplo, uma pessoa olha para mim e diz assim: “Você não parece que é professor”. O que ela está querendo mesmo dizer para mim? Ela não está debochando, não está desacreditando da minha capacidade, até porque meu nome em muitas comunidades, sejam quilombolas rurais ou comunidades periféricas, é “professor”. Aqui mesmo onde eu moro meu nome é “professor”. De vez em quando eu digo às pessoas: “Meu nome é Itamar, pode me chamar de Itamar, é um nome muito bonito”. Aí algumas pessoas falam assim: “Tá certo, professor, tá certo”.

Nesse sentido, por exemplo, quando eu chego para trabalhar a convite junto com o pessoal que faz a luta com pessoas que vivem com HIV e AIDS, eles olham para mim e reconhecem em mim um aliado. Os quilombolas, por outro lado, já me olham e acham que eu sou de lá. Tudo isso me dá o conteúdo e o fermento para eu trabalhar uma coisa que está no cerne do movimento da 8ª Conferência e que eu trabalho muito nas minhas turmas: a consciência ética, técnica e política.

Por que a pessoa que vai trabalhar no SUS não tem o cartão do SUS? Por que ela não tem e não diz assim ‘Ah, meu posto de saúde é aquele’? Quando as pessoas falam que estão na fila do SUS, sem querer esperar um ano por uma consulta de especialista, eu sei o que é isso. Aí você pega essa vivência e leva para sala de aula. Fica muito menos difícil ensinar sobre determinados processos complementares e/ou contraditórios e/ou paradoxais que acontecem no movimento da Reforma Sanitária.

Essas comunidades me ajudam a não ter que deixar minha raiz, quem eu sou. Eu sou, antes de tudo, um trabalhador. Eu trabalho para viver, eu vivo do meu salário. Me identifico também, a partir do fato de ser um trabalhador, como um homem preto. E pelas histórias que eu faço da minha família, eu descendo de quilombolas e hoje me assumo como quilombista, como diz Abdias do Nascimento. Pelo que minha avó contava, ela morava em um quilombo, mas foi retirada de lá e nunca soube que aquilo era um quilombo. Ela foi culturalmente educada com outro tipo de formação. Meu avô vivia em Belo Jardim, na zona rural, então eu descendo desse povo, gosto de ser e reafirmo que sou.

Por exemplo, na próxima sexta-feira, vou estar no Quilombo de Guaribas, ajudando as pessoas a pensar o que é o reconhecimento de uma comunidade quilombola pela Fundação Cultural Palmares. Hoje à tarde vou estar com estudantes do primeiro período do curso de Enfermagem, os preparando para estarem na comunidade da Boa Vista, uma área ocupada irregularmente onde as pessoas sofrem com pressão da polícia e com toda a ausência de políticas públicas. Então, eu consigo falar com as pessoas da comunidade, eu consigo aprender com eles e consigo comunicar isso à minha turma de estudantes.

Eu não peço licença porque eu sou esse povo. Eu sou esse povo e compreendo esse povo porque sou um deles. E eu sou um deles desde gerações anteriores, e até hoje eu sou. E gosto quando chego nessas comunidades e alguém vem com um caneco bem grande, um pouquinho de café, e fala assim: “Por que o senhor nunca mais veio aqui, hein?”. Ou seja, eles me veem como pertencente.

E eu digo: “eu pertenço a esse povo”. Então, voltando a uma pergunta anterior que você fez, é essa população que tem recebido ações para consumir, às vezes em favor de um projeto político. ‘Olha, tal prefeito fez mais unidades de Saúde da Família do que outros’. Esse povo tem que entender que isso é resultado da luta deles. E ele só entende com a gente ajudando, sendo uma espécie de intelectual orgânico. Desculpe se parecer petulante, mas eu acho que sou um pouquinho orgânico, sabe? Eu tô no meio deles.

Uma coisa que também foi falha nossa em termos de participação social, a partir da universidade, é querer ser líder o tempo todo, não colocar jovens para serem líderes, não se permitir aprender com eles. Ontem estava em uma aula que foi dada por Madu [Maria Eduarda Pereira Leite], uma jovem recém ingressa na UPE, doutora em Ciências Sociais, designada para trabalhar comigo, ministrando aulas muito melhor que eu. E RD [Rafaela Delmondes] que foi minha aluna!… Ela é muito melhor professora que eu e foi uma coordenadora de Módulo Curricular muito melhor que eu. Se você ver como elas são brilhantes, como trabalham os conteúdos acadêmicos, como estão fazendo militância para que os estudantes desenvolvam essa capacidade… Amo!

“Uma coisa que também foi falha nossa em termos de participação social, a partir da universidade, é querer ser líder o tempo todo, não colocar jovens para serem líderes, não se permitir aprender com eles”

Quando eu vejo vários dos meus ex garotos e garotas, jovens, a gente que está mais velho tem que vir mais para trás mesmo. Eu acho que é outra falha que a gente tem feito contra a participação social: precisamos renovar mais esses ambientes. Permitir que os jovens tragam suas novidades e inquietações.

Acho que tudo isso, essas minhas vivências em movimentos sociais, têm me ensinado e eu tenho traduzido isso para a formação com meus estudantes, quer sejam de graduação, quer sejam de residência. Às vezes eu faço isso melhor, às vezes menos, mais fraquinho, às vezes alcanço um resultado melhor com alguns estudantes, com outros não. Mas a gente está indo, acho que a gente tem feito por aí, sabe?

Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS): Em um contexto político e social marcado por polarização política e disputas de narrativas, quais são os principais desafios colocados para a militância social?

Itamar Lages: Se eu for olhar para o contexto por essa perspectiva, esse contexto é antigo, muito antigo. Não obstante que ele hoje esteja muito aceso, particularmente por conta das eleições, e vamos ter agora o que tivemos há quatro anos ou o processo que estamos vivenciando desde 2016. Eu lembro de mim adolescente lá no Alto Bartolomeu de Gusmão, no bairro de Cavaleiro [em Jaboatão dos Guararapes], e alguns políticos indo para o bairro em cima de um caminhão fazer suas pregações de que, se eleitos, iriam distribuir o que hoje a gente chama de voucher, para que as pessoas pudessem consultar médicos particulares. E falavam isso com a boca muito cheia. E muitas pessoas do meu povo enveredaram por esse sonho e ainda hoje estão nessa dificuldade.

Quando a gente estava para criar o SUS, o ministro da Previdência Social Raphael de Almeida Magalhães tinha essa proposta, ela não tem nada de nova. Era uma proposta do sistema anterior de saúde na qual o Estado financiava a assistência privada. Quando a gente tem os dados muito bem apresentados pela Erika Aragão, Francisco Funcia, José Carvalho de Noronha, que temos um gasto de 9% [do PIB para a saúde] e só 4% vão para o SUS, e vê um jornalista dessas grandes mídias dizendo ‘E não vai cortar dinheiro da Saúde e da Educação, não? Gasta muito’.

Eu não tenho muita bagagem teórica para falar certas coisas, mas como também não tenho nenhum problema com a ignorância, acho que a ignorância é legal e nos ensina limites, peço licença para dizer o que eu vou dizer. Não tenho a autoridade de fazer pesquisa na área, mas um dos desafios é fazer a análise de conjuntura, entendendo que essa conjuntura que estamos vivendo é muito antiga. Não é uma conjuntura de 2016 para cá, ela tem outros elementos, mas a conjuntura é dada por uma disputa de ideias: saúde como direito, assistência social como direito, educação pública como direito, ou como mercadoria.

“A conjuntura é dada por uma disputa de ideias: saúde como direito, assistência social como direito, educação pública como direito, ou como mercadoria”

Eles serão serviços e, ao ser serviço, nem todos vão ter a oportunidade de acessar? E se todos não vão ter oportunidade de acessar, nem todos vão ter direito ao pleno desenvolvimento humano em suas individualidades? O discurso do direito à saúde, olhando para o tema 1 do relatório final da 8ª Conferência, o direito à terra, direito ao transporte, tudo isso continua novo porque não se realizou. A gente tem um aparato jurídico que diz que o SUS é universal, mas na prática… Eu falei isso em sala de aula, mostrei para os estudantes: Recife tem cerca de 1 milhão e 400 mil pessoas. O distrito 7 tem mais de 300 mil pessoas, é maior do que alguns outros municípios pernambucanos. E nessa região, só tem cerca de 76 mil pessoas registradas no prontuário eletrônico. Ou seja, a letra da lei para muita gente é morta.

Então, o movimento sanitário tem que ter uma compreensão de que aquilo que se defende há mais de 40 anos através de Sérgio Arouca, Madel Therezinha Luz, que já não estão conosco, de Sônia Fleury, Jairnilson Silva Paim… não são conteúdos antigos, eles ainda não se realizaram e, como não se realizaram, são novos. O principal desafio nosso é entender teoricamente porque sem uma teoria bem desenvolvida, a gente não faz mudanças concretas. E, entendendo essa teoria, se colocar como militantes desse movimento. Ao se colocar como militantes desse movimento, a gente está professando que, do ponto de vista ético, político e social, estamos para além do SUS, a gente está defendendo o direito à saúde mesmo.

Eu penso que para a militância esse é o principal desafio. Conhecer radicalmente a conjuntura a partir de uma teoria revolucionária, que substitua o assistencialismo e os favorecimentos pelo direito. Uma teoria que faz do militante um agente desse processo. Ele não vai ser agente quando tudo estiver modificado, vai ser um agente da construção da mudança. Eu penso que esse continua sendo o principal desafio: a militância tem que se formar construtora desse direito à saúde. Revolucionária, na verdade.





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