“Vivas nos Queremos!”

Autor: Paloma Silveira
Publicado em: 25 de março de 2026
Atualizado em: 2 de junho de 2026

Para algumas pessoas, estamos atravessando mais uma crise capitalista. Será? Ou o sistema representa as próprias crises? As crises não seriam constitutivas dele? Não sei discorrer sobre este tema com a profundidade que ele requer, mas gostaria de partir destes pontos: as múltiplas crises que fundamentam o capitalismo e as diferentes desigualdades/iniquidades que o estruturam.

Guerras, dominações, invasões imperialistas em nome do combate ao “terrorismo”, da paz etc., destruição de povos, territórios, natureza, várias violências e violações dos Direitos Humanos, aumento das desigualdades e da pobreza são cíclicos, e se repetem exaustivamente ao longo da sua invenção. Recortando apenas o período colonial-moderno contemporâneo, constatamos que a lista dos horrores capitalistas é infindável. São fatos históricos, apesar de não estarem valendo muita coisa nesses tempos de pós-verdade. Na realidade, tenho a impressão de que nunca valeram muita coisa. Os grandes problemas ocasionados pelo sistema capitalista não são sentidos/colocados dentro dessa seara social político-histórica complexa. Em geral, onde são colocados? Em uma leitura simplória, mas com enorme apelo afetivo-social e de fortalecimento dos micropoderes, na tal “desestruturação familiar”.

A “família desestruturada” aparece, em alguns discursos-práticas, como a grande justificativa/problema e também como a grande solução, afinal, a família tem um valor simbólico-cultural importante, se tornou até um adjetivo tido como positivo: homem de família, mulher de família, para casar etc. Dizem que essa família está sob risco, por causa de nós mulheres cis e trans que deixamos/não queremos de ser as “belas, recatadas e do lar” (contém ironia). Nesta lógica, o fim do mundo está mais próximo e nós, feministas, que estamos acabando com ele e com as fêmeas (contém novamente ironia)!

Ouvi outro dia um “macho” conversando com outro o seguinte diálogo: “Lá em casa minhas fêmeas não assistem mais a Globo, já viu as novelas e os programas? Desvirtuam as mulheres virtuosas”. O tenente-coronel, autointitulado macho alfa, preso pelo feminicídio da esposa, Gisele Alves Santana, e acusado de assediar outras mulheres policiais, não está e nem nunca esteve sozinho, e também não é uma exceção. Para eles, as mulheres são fêmeas betas/submissas: “eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa – com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser” (mensagem enviada pelo tenente-coronel para Gisele). Animalizadas com amor, carinho, atenção e autoridade – devemos obedecer ao pai, ao filho e ao espírito santo, amém (mais ironias)!





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