Visita de médicas e médicos à Vigília Lula Livre: reflexões sobre uma experiência de resistência e organização social

Autor: Thereza Christina Bahia Coelho
Publicado em: 18 de setembro de 2018
Atualizado em: 6 de janeiro de 2022

Nos dias 8 e 9 de agosto, 46 médicos de todo o Brasil promoveram uma caravana de solidariedade ao cidadão Luiz Inácio Lula da Silva, submetido a uma prisão política, arbitrária, com o intuito claro de impedi-lo de concorrer à Presidência da República nas eleições de 2018. A comitiva utilizou como base de apoio os espaços da Vigília Lula Livre (VLL) distribuídos estrategicamente nos arredores do bairro de Santa Cândida, em Curitiba, onde está situado o prédio da Polícia Federal (PF) do Paraná.

O objetivo desse texto é narrar a experiência deste coletivo de trabalhadores da saúde sob a ótica particular de um sujeito-indivíduo que a viveu desde os primeiros momentos.

O fato mobilizador de tal iniciativa foi a repercussão alcançada nas mídias alternativas por uma Nota Pública escrita pelo coletivo Médicos pela Democracia (MD), do estado da Bahia, na qual se externava a preocupação com o confinamento do ex-presidente, sem direito a receber cuidados médicos em decorrência da proibição da juíza Carolina Lebbos, da 12ª Vara da Justiça Federal do Paraná. A divulgação da carta teve como desdobramento imediato o relaxamento da proibição e permissão de visitas médicas de rotina.

Embalados pela efetividade da nota, alguns membros visualizaram a criação de uma comitiva que agregasse os coletivos médicos de esquerda em torno de um evento que poderia gerar fato político e lançar os coletivos em uma luta mais ampla em torno das questões que os uniam, das quais destaco os crescentes atentados ao Estado de direito, à Seguridade Social, à educação pública, às leis trabalhistas e ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Em 8 de junho, foi criado o grupo “Visita MD/Rede a Lula” no aplicativo WhatsApp e reunidos participantes dos dois coletivos (Médicos pela Democracia – BA e Rede de Médicos e Médicas Populares – RMMP), que sustentaram a iniciativa do início ao fim, e outros que foram se integrando ao longo do tempo, como Médicos pela Democracia do Ceará e Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro.

De imediato, foi elaborada a “Carta Aberta a Luiz Inácio da Silva e à população brasileira”, anunciando a ida a Curitiba e algumas posições dos dois coletivos que assinaram a carta:

 

[…] Hoje, sob sucessivos ataques dos golpistas, o SUS padece pelo: 1) subfinanciamento orçamentário; 2) fragilização da política de Atenção Primária; 3) redução do Programa Mais Médicos; 4) retrocesso na atenção à saúde de pessoas com sofrimento mental, com retomada de comunidades terapêuticas e leitos psiquiátricos em detrimento dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e demais serviços substitutivos; 5) privatização da saúde através de “planos populares” e sua exploração pelo capital estrangeiro.

 

Portanto, muitos motivos nos trazem nessa visita a LULA: nossa solidariedade a um cidadão injusta e ilegalmente detido há meses e nosso compromisso na defesa do Estado Democrático de Direito e do Estado de Bem-Estar Social para todas as brasileiras e brasileiros, o que necessariamente exige uma política de saúde universal, gratuita, integral e de qualidade. Ousar lutar, ousar vencer!

 

Também foram efetuados contatos com a organização da Vigília, com políticos e médicos próximos ao presidente, na tentativa de conseguir a permissão para uma visita pessoal à Lula, mesmo sabendo-se da baixa probabilidade de sua ocorrência. A primeira data proposta foi 5 de julho. Entretanto, os diversos anúncios da possível libertação do ex-presidente Lula terminaram empurrando a data para o dia 9 de agosto, uma quinta-feira, dia da semana em que são permitidas as visitas.

As diversas mediações levadas a cabo com o pessoal da Vigília geraram uma programação já a partir do dia 8, que será relatada em ordem cronológica em conjunto com as impressões da narradora. É necessário que se diga que a preparação da visita já foi, por si, um exercício político de interação entre grupos e indivíduos com afinidades e divergências nos modos de debater, compartilhar, liderar e se integrar. A utilização de um instrumento virtual que permitia o contato visual em tempo real, a plataforma Hangouts, da Google, nas últimas três reuniões, contribuiu para a aproximação dos membros mais engajados na organização da comitiva e acomodação das diferentes perspectivas sobre a programação, uma vez que o grupo buscava se antecipar aos possíveis eventos e garantir o cumprimento dos objetivos que envolviam certo grau de complexidade: reunir médicos de todas as regiões do país que abririam espaço nas suas carregadas agendas de trabalho, no meio da semana, e viajariam com seus próprios recursos, num empreendimento cheio de incertezas e estranhamentos.

A comitiva dos baianos foi formada por sete pessoas, aqui descritas na forma como se apresentaram à Vigília: Vítor Rocha (responsável pela criação do grupo no WhatsApp e eleito porta-voz do nosso grupo), médico da família; Paulo Conceição (responsável pela nota que mobilizou o grupo e importante líder apaziguador dos fortes ânimos combatentes); Cacilda Félix, auditora; Rosa Castália Soares, assessora técnica da FUNASA – Fundação Nacional de Saúde; Regina Fátima Ribeiro, homeopata; Thereza Christina Coelho, professora da UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana; e Mariana Gouveia, pediatra. Os seis primeiros integrantes viajaram juntos já identificados com camisas do MD e submeteram-se às reações de transeuntes: em geral, mais positivas (comentários solidários ou perguntas sobre o significado do grupo) entre os trabalhadores de funções subalternas dos aeroportos (seguranças, pessoal da limpeza); negativas (restritas, em geral, a expressões faciais de desaprovação) entre alguns passageiros; e indiferentes. Essa observação justifica-se por uma mudança de disposição entre a militância, que enfrentou, nos primórdios do Golpe, o receio de expor-se à eventual violência ou provocação ao circular em espaços públicos com vestimentas que evidenciassem sua posição política.

As atividades da comitiva haviam se iniciado pela manhã do dia 8 com a Roda de Conversa, intitulada “Saúde da Mulher Negra”, capitaneada por Joice Aragão, pediatra e sanitarista baiana, aposentada da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, que desempenhou importante papel nas negociações junto à VLL por já haver estabelecido relações em visitas anteriores. Desse modo, o encontro dos baianos com outros membros da delegação deu-se no ponto central, em terreno alugado em frente ao prédio da PF onde foi armada uma tenda, e no qual se realizam as rodas de conversa e os atos comunicativos conhecidos como Bom Dia, Boa Tarde e Boa Noite Presidente Lula. Nesses atos-momentos, algum visitante “puxa” a saudação com o auxílio de um megafone direcionado sob a orientação dos organizadores. Estávamos no 124o dia da vigília, conforme se lia no quadro-verde escrito a giz.

Aqui cabe um pequeno parêntese, para tratar do sentimento difuso e confuso que é estar diante da prisão que abriga Lula. Algo misterioso e diferente do simples assistir ou ver passar o ex-presidente, como tivemos oportunidade na vinda da caravana à Salvador, momento aquele alegre e cheio de esperança. De algum modo, imaginar Lula como cidadão encarcerado, sozinho em algum lugar atrás de frias paredes, produziu em mim e em outros um sentimento que não é possível descrever. Algum tempo atrás, como parte de uma demanda feita pelo MD, realizei pequena pesquisa sobre os efeitos psíquicos devastadores em encarcerados no regime de solitária. Esse conhecimento teórico, entretanto, é menos mobilizador do que o clima gerado por uma ausência física que paira como um espectro, unindo pessoas ao seu redor.

 

Clique aqui para o texto na íntegra.





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