Urge deslocar definitivamente o lugar dos Estados Unidos em nossa percepção sobre a saúde
Autor: Deisy Ventura
Publicado em: 3 de dezembro de 2025
Atualizado em: 4 de dezembro de 2025
No início de agosto, centenas de tiros atingiram a sede dos Centros de Controle de Doenças (CDCs) em Atlanta, nos Estados Unidos. A destruição de portas e janelas foi seguida da morte de um policial e do próprio atirador, um jovem que portava máscara cirúrgica, pistolas e rifles. Segundo a família e os vizinhos do agressor, sua motivação foi a crença de que a vacina contra a covid-19 causa danos à saúde.
Fruto de uma poderosa e sistemática estratégia de desinformação, o atentado evidencia que a destruição deliberada da confiança dos cidadãos nas instituições sanitárias põe em risco não somente a saúde da população, mas também a vida dos profissionais que atuam nesse campo. Em resposta ao ataque, uma carta assinada por centenas de atuais e ex-funcionários denunciou as demissões massivas e o desmantelamento dos serviços de saúde norte-americanos, além do processo de “diabolização da saúde pública” promovido pelo secretário Robert F. Kennedy Jr., máxima autoridade federal sanitária, que já se referiu publicamente aos CDCs como “antro de corrupção”.
Não só com armas de fogo, porém, se destrói uma instituição. Dias depois do atentado, a diretora dos CDCs, Susan Monarez, foi demitida por, em suas palavras, recusar-se a tomar decisões ilegais e adotar medidas que fossem contra a ciência. Multiplicaram-se, desde então, os relatos de um ambiente de censura e perseguição aos especialistas que resistem à substituição de evidências científicas por informações falsas e crenças.
Um marco importante desse processo foi a difusão, em 19 de novembro, pelo portal oficial dos CDCs, da falsa e ofensiva informação de que estudos que comprovam o vínculo entre vacinas e autismo foram ignorados pelas autoridades de saúde. Esse verdadeiro emblema do negacionismo, até então combatido pelas autoridades sanitárias, soma-se a outras incontáveis más condutas científicas perpetradas na nova gestão – por exemplo, um relatório sobre a saúde infantil baseado em referências falsas, provavelmente fabricadas por programas como o ChatGPT. Difícil não concordar, portanto, com um ex-dirigente dos CDCs que recentemente clamou: “Não confiem nessa agência”. Mas a desconfiança é insuficiente para proteger a saúde pública, tanto lá como aqui.
Estamos diante de um potencial inédito de difusão global do negacionismo científico, graças à imensurável influência mundial das instituições sanitárias norte-americanas, cujos enfoques, modelos, teorias, métodos e técnicas estão entranhados nas estruturas de numerosos países, tanto nos sistemas de saúde como no meio científico. É inegável que a referência a pesquisadores, profissionais ou entidades estadunidenses constitui uma presunção automática de excelência técnica ou acadêmica, tão falsa quanto subalterna. Até mesmo pesquisadores norte-americanos reconhecem os riscos da insuficiente proteção contra conflitos de interesse na produção científica, a exemplo das falas de Marion Nestle e Rob Wallace em evento recente na Faculdade de Saúde Pública da USP.
Apesar de tantos alertas, ainda convivemos com a recorrente ausência de senso crítico quanto à utilização sistemática, por mais de um século, de órgãos públicos, instituições de pesquisa e universidades como instrumento dos interesses econômicos e políticos norte-americanos, inclusive por meio de agendas de pesquisa e formação.
Protagonistas históricos do campo da saúde global, os Estados Unidos atuaram intensamente no âmbito da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de outros foros multilaterais, na posição de maiores financiadores dos programas de cooperação internacional sanitária, arcando, até 2024, com cerca de um terço do investimento anual na área. Em 2025, porém, o presidente Donald Trump promoveu uma frontal ruptura com a OMS, além de cortar 67% de seu investimento na cooperação internacional em saúde, o que repercutiu na redução de 21% dos recursos globais investidos em cooperação em saúde entre 2024 e 2025, passando de U$ 49,6 a 39,1 bilhões. Os cortes ocasionaram a brusca suspensão de programas de prevenção e controle de doenças, pondo em risco a vida de milhões de pessoas em diversas regiões do mundo. A resposta global ao HIV, por exemplo, sofreu seu revés mais significativo em décadas, como afirma um recente relatório do Programa das Nações Unidas para a aids (Unaids).
Diante da repercussão negativa, Trump afirmou que não abandonaria a saúde global, mas promoveria uma mudança radical. Cumprindo o prometido, apresentou em setembro a nova estratégia de saúde global dos Estados Unidos, cujo nome não poderia ser mais adequado: America First (América em primeiro lugar). A troca de vocabulário chama a atenção: em lugar de cooperação, fala-se em comércio; em lugar de países beneficiários, consumidores, que pagarão pelos serviços e produtos dos Estados Unidos.
*Texto publicado originalmente no Jornal da USP.
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