Universidade: Provocação para uma agenda desutópica

Autor: Naomar de Almeida Filho
Publicado em: 9 de fevereiro de 2026
Atualizado em: 31 de março de 2026

Parte III – Para uma tecno-protopia

Em sociedades marcadas pela colonialidade iluminista eurocêntrica, a milenar instituição chamada Universidade tem cumprido uma missão histórica como produtora de utopias alimentadoras da cosmovisão hegemônica. Ao analisar modelos de instituição universitária estabelecidos no hemisfério Norte nos séculos 19 e 20, o hermeneuta francês Paul Ricoeur (2005, p.324) afirma que a Universidade provém da utopia liberal humanista que “denega, por vezes até ingenuamente, as verdadeiras fontes do poder que são a propriedade, o dinheiro, a violência, todas as forças que não são as da inteligência”. Para Ricoeur (2005, p.324), o cerne dessa forma utópica “estava presente no Iluminismo francês (talvez de um modo mais político e mais imediato), assim como no Iluminismo alemão (mais como teoria da cultura)”. A utopia universitária, no primeiro caso, encontra-se na alegoria das Luzes (Lumières), no segundo caso, na ideia de formação geral (Bildung).

Não obstante celebrações e autoemulações, o modelo de universidade atribuído a Humboldt, baseado na Bildung, representava uma utopia de autonomia e liberdade acadêmica nunca realizada na prática. Apesar de ameaças, crises e retrocessos, esse modelo institucional e político-pedagógico resiste em todo o mundo, de modo residual e anacrônico, como elemento gerador de tensões internas na educação superior, mesmo na universidade brasileira contemporânea (Chauí, 2001). No Brasil, o ensino superior se estruturou inspirado no iluminismo francês das Lumières, modelado pela organização curricular em cátedras e disciplinas e pela fragmentação institucional em faculdades, priorizando a qualificação profissional restrita em lugar de uma formação geral na cultura (Almeida-Filho, 2025).

Nas últimas décadas do século passado, a aplicação ampla do conhecimento científico na produção industrial, sob a forma de técnicas e saberes tecnológicos, com o avanço do capitalismo neoliberal em escala globalizada (Kotz, 2015). Como efeito dessa suposta quarta revolução industrial, modelos de produção baseados em controle e automação foram viabilizados por tecnologias eletroeletrônicas e dispositivos digitais, gerando mudanças profundas nas formações econômico-sociais do que Boutang (2011) propôs designar como capitalismo cognitivo. Nesse contexto, batizado como Era Digital (Floridi, 2014), profundas transformações sociais, políticas e culturais constituem a “sociedade da informação”, terreno fértil para dataficação da vida cotidiana na era do capitalismo de vigilância (Zuboff, 2019). Nesse âmbito, cabe destacar os recentes hypes do metaverso e da Inteligência Artificial (IA), cujo impacto na cibercultura, nos sistemas formativos e na educação superior foi objeto de recente artigo publicado em Outras Palavras (Mascarenhas & Burdman, 2025).

Num registro introdutório e ainda esquemático, proponho refletir sobre o papel da universidade nos diversos planos e dimensões da formação de sujeitos epistêmicos e de reprodução das utopias da modernidade e suas derivações, no contexto atual de globalização do capitalismo cognitivo. Na parte I desse artigo, inicialmente apresentei um pequeno glossário de termos derivados do conceito de utopia, como distopia, retrotopia, desutopia, heterotopia, focalizando sua utilidade para compreensão dos contextos e impactos do digital no mundo contemporâneo. Com base nessa fundamentação, buscando avaliar formas viáveis de superação do caráter utópico da educação superior, analisei na parte II a forma protopia como princípio gerador de projetos realistas e viáveis visando à concretização de mudanças contingentes e estratégicas de uma dada realidade social em geral e no interior de instituições sociais, como a universidade.

Nesta parte III, compartilho uma reflexão sobre pertinência e possibilidades de uma tecno-protopia como estratégia capaz de articular forças políticas e movimentos sociais em torno de um projeto de universidade pública de fato autônoma, comprometida com competência sociotécnica, soberania tecnológica, emancipação de sujeitos epistêmicos e sensibilidade eco-etno-social.

*Publicado originalmente no site Outras Palavras.





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