Trump e a América Latina no início do seu mandato

Autor: Raphael Padula
Publicado em: 18 de março de 2025
Atualizado em: 22 de abril de 2025

Com o retorno do Presidente Donald Trump ao poder nos Estados Unidos e seu anunciado foco de Política Externa e de Segurança na supremacia no Hemisfério Ocidental, é importante analisar seus quase dois primeiros meses de mandato. Em particular, olhar para sua visão e ações para a América Latina, associada ao posicionamento global dos EUA, para além de sua estratégia de articulação e liderança da extrema direita interna, regional e global. Tal visão sobre o controle hemisférico passa pela redução da influência de Potências Externas no continente americano, especialmente da China, combinada, do ponto de vista global, com uma redução da participação estadunidense na Eurásia, focando em questões pontuais e estratégicas que visam manter a supremacia global dos EUA. Isso permitiria aos EUA poupar recursos e vidas em conflitos na Eurásia, e se concentrar nos desafios e oportunidades no hemisfério, assim como na aplicação de recursos beneficiando a população e segurança estadunidenses. Neste âmbito, estariam enquadradas a redução dos gastos com a segurança dos países europeus (e da OTAN) e a negociação com a Rússia reconhecendo seu status de Grande Potência nuclear, buscando afastá-la e isolar a China, bem como fragmentar o BRICS. Em relação ao BRICS, Trump vem ameaçando retaliações a países que participem de arranjos monetário-financeiros que desafiem a supremacia do dólar.

O foco hemisférico, com especial atenção ao “Grande Caribe” (incluindo Colômbia e Venezuela), combina-se ao estabelecimento de linhas de defesa avançadas transatlânticas e transpacíficas, são instrumentalizados por meio da guerra comercial-tarifária e da percepção de “novas ameaças” pós Guerra Fria. Estas ameaças seriam o narcotráfico, a imigração, o crime transnacional, associados ao “terrorismo” e criminalidade no território dos EUA, podendo estar associados a grupos ou Estados hostis externos ao hemisfério. O nacionalismo econômico-tarifário global também teria foco no México e Canadá, por conta do NAFTA, que teria tirado empregos dos EUA – apesar dos notáveis e recorrentes ganhos registrados por empresas estadunidenses. Ao mesmo tempo, os Decretos assinados no seu primeiro dia de mandato e negociações já estabelecidas com países do Grande Caribe mostram que a America First Trade Policy busca favorecer as Big Techs estadunidenses (inclusive revertendo e evitando ações nacionais regulatórias) e o acesso a minerais estratégicos e recursos energéticos (inclusive a flexibilização de regulações ambientais).

As escolhas de Marco Rubio como Secretário de Estado – filho de exilados cubanos e primeiro latino a ocupar o cargo – e de Mauricio Claver-Carone como enviado especial para América Latina do Departamento de Estado, reforçam a importância da América Latina na estratégia adotada por Trump. Em artigo publicado no fim de janeiro, Rubio destaca que colocar os EUA em primeiro lugar significa “concentrar atenção à vizinhança dos EUA: o Hemisfério Ocidental”, onde problemas se agravaram e os EUA teriam perdido oportunidades, descuidando de seus sócios. Sua primeira viagem como Secretário de Estado foi à América Central e Caribe. Olhando para as medidas adotadas, é possível destacar diretrizes e ações emanadas dos Decretos Presidenciais assinados no seu primeiro dia de mandato.

Publicado originalmente no Observatório Internacional do século XXI (ed. Março/2025).





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