Todos os dois homens do presidente

Autor: Paulo Martins*
Publicado em: 23 de janeiro de 2020
Atualizado em: 23 de dezembro de 2021

O segundo ano de governo Bolsonaro começa como terminou o primeiro. Nada de novo aqui na terra. Brasília continua sendo ora o palco de uma ópera bufa cujos atores se revezam a fim de não deixar o pano baixar, ora um picadeiro em que sob a lona aguardamos os “animados” Arrelia e Pimentinha. Enfim, a semana passada foi marcada por mais duas desastrosas ações do (des)governo de JMB [Jair Messias Bolsonaro]. Ambas sob a tutela das áreas que o presidente, desde o início de seu mandato, insiste em atropelar com nomeações inapropriadas, associadas a planos mirabolantes, invariavelmente lastreados por seu mentor cultural, o “autoproclamado filósofo e exilado”, residente em Richmond, EUA, Olavo de Carvalho.

A primeira ação liga-se à pasta da Educação, a segunda, à Secretaria da Cultura. Vale lembrar que nem o ministro Abraham Weintraub nem o ex-secretário Roberto Alvim são marinheiros de primeira viagem na produção de conteúdo jornalístico impróprio ou de ações governamentais descabidas, inócuas, equivocadas ou irrelevantes. Não que isso nos assuste, afinal são absolutamente adequadas ao cabedal técnico que acumularam ao longo de suas vastas e sólidas experiências na gestão pública, ou mesmo, privada. Jamais alguém poderá esquecer o clip produzido por Weintraub ao som de Singin’in the rain[1] ou os vitupérios proferidos por Alvin sobre a primeira-dama do teatro brasileiro, Fernanda Montenegro[2]. Mas isso serve apenas para refrescar a memória.

Diversos em abrangência ou em nível de seriedade, os dois (in)gestores indigestos foram capazes de se superar. Weintraub conseguiu mais uma vez macular o Enem. O erro na divulgação das notas, que segundo ele comprometeram menos de cinco mil candidatos, sabe-se hoje afetou a vida de cerca de 50 mil examinados este ano, não ficando o erro do registro de notas restrito ao segundo dia de exame[3]. Não satisfeito comprovou sua expertise econômica ao não realizar a parte do orçamento de sua pasta que fora repassada pela “operação lava a jato”, algo em torno de 1 bilhão de reais[4], talvez mais, “coisa pouca” para nosso país tão combalido no plano da educação, em todos os níveis, e no qual qualquer soma pode fazer diferença significativa, como todos nós, leigos, sabemos. Entretanto o orçamento não foi realizado, segundo o responsável pela pasta, “por falta de projetos”. A sinceridade é louvável neste caso. Weintraub não se contradiz.

 

Leia aqui a análise na íntegra

 

Publicado originalmente no Jornal da USP.
*Professor e vice-diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)





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