Tempo de Transver os Bytes!
Autor: Bruno Olivatto*
Publicado em: 11 de novembro de 2021
Atualizado em: 5 de janeiro de 2022
A perspectiva do trabalho híbrido no tempo e no espaço com as tecnologias não é algo novo, já o fazemos desde muito. Estar ou não estar em algum “lugar” é uma condição relativa, afinal a virtualidade não se contrapõe à realidade, mas à fisicalidade. O imperativo pandêmico transformou subitamente as experiências de sala de aula em ensino remoto por meio da presencialidade digital. Em razão da cibercultura, estamos sempre em não-lugares, em ambiências sociotécnicas. “Onde você está?” “Estou no meet!” “E você?” “Estava no zoom, mas agora estou no twitter!”.
A pandemia, contudo, radicalizou intensamente a nossa noção de tempo. Estamos saturados de agora, já dizia Benjamin. O agora nunca fora tão massivamente suportado por telas. Estamos no limite. A fadiga delas, na verdade, denuncia o déficit das rotinas físicas. Isso não é pouco, pois também, com elas, costumamos construir o nosso repertório de experiências irrepetíveis no mundo. Elaboramos, indiscutivelmente, boa parte do nosso senso de mundo, noção de realidade, em forte relação com os bytes, em formato de palavras, visualidades imagéticas, estáticas e/ou em movimento, áudios/sons e bricolagens de tudo isso junto. Mas o reconhecimento dessa potência sociológica contemporânea que as redes nos permitem, contudo, não prescinde das fisicalidades.
Nossas experiências forjam memórias e estas são decisivas para a nossa aprendizagem. Quando limitadas as experiências de convivência, especialmente as de âmbito escolar/acadêmico, ou seja, diminuídas as tramas de fisicalidade dos corpos, reduzem-se as memórias e com elas esvaziadas, aprendemos menos. A hibridização da condição física com a virtual, normalidade da socialização do tempo presente, amplifica as nossas percepções de mundo e a produção de sentidos. Quando forçosamente suspensa a dimensão física dessas experiências, e por tempo tão prolongado como nos impôs a pandemia, a constituição da cognição se altera, desestabilizando um modo de ser social que nos parecia interrompível.
A pandemia, em razão desses desencontros de estudantes, professores, educadores e comunidade, acentua não apenas a interrupção/restrição de aprendizagens mas provoca uma efetiva ressignificação dos nossos etnométodos, ou seja, dos modos de ser-pensar-fazer que nos permitem compreensão interpretativa e reflexiva da ação social cotidiana, alterando, assim, invariavelmente, os jeitos de lidar com os processos de aprender. Se, por um lado, tentamos suprir o déficit de fisicalidades dos corpos por meio de digitalidades, por outro, mesmo conectados, desconectamo-nos do senso comunitário que a escola/universidade favorece. Perdeu-se, provisoriamente, o contato caloroso dos corpos, as insurgências carnais acionadoras de interação, abortou-se o diálogo despretensioso, aquele habitual, costumeiro, ordinário, que dá vazão espontânea a práticas de cuidado, atenção, cumplicidade. Pausamos processos empáticos que, invariavelmente, juntam as pessoas e as inspiram, favorecendo epifanias e heurísticas de problemas coletivos.
Clique aqui para ler o texto na íntegra.
Texto publicado originalmente no Jornal Hermes.
*Doutorando em Educação-UFBA, diretor do Centro de Estudos e Assessoria Pedagógica/CEAP. Coordenador da Pós-Graduação em Educação-UNISBA.
Deixe um comentário