Ser (ou não ser) brasileiro: Eis a questão
Autor: Carmen Teixeira
Publicado em: 28 de dezembro de 2015
Atualizado em: 31 de dezembro de 2021
Fui assistir “Chico: um artista brasileiro”, documentário de Miguel Faria Jr que está em exibição em nossos cinemas. Sozinha, em um domingo à tarde, sem nem de longe imaginar o que se passaria comigo durante a exibição do filme.
Depois que saí do cinema fiquei a pensar, a recordar e a refletir sobre as imagens, as canções, os textos e as entrevistas que compõem esta obra especialíssima.
Sim, ao meu olhar, esse filme ultrapassa os limites de um simples documentário sobre a trajetória de um artista excepcional e aponta caminhos para a reflexão sobre o que significa ser brasileiro, nossas raízes, nossa história recente, nossa multifacetada identidade como povo, e os desafios que se apresentam no momento atual, de crise e reconstrução de projetos políticos, sociais e culturais.
De fato, ao reconstruir, através da montagem de variados fatos e processos que constituíram, ao longo dos últimos 70 anos, a vida de um personagem singular, Chico Buarque de Holanda, o filme nos leva, com um sopro, de volta ao final dos anos 50, quando na esteira da modernização da vida urbana consequente à industrialização da nossa economia surge a bossa nova, gênero musical que expressa o diálogo entre o samba e o jazz, criando um ritmo, uma harmonia e um jeito de cantar que fala das coisas simples do cotidiano, do amor, do sorriso e da flor, da menina que passa, do mar azul de Ipanema… e dessas coisas pequenas que fazem da vida um prazer, um sonhar.
Mas, o filme traz também o Chico de agora dizendo que a bossa nova era um produto cultural da elite carioca (com sotaque baiano, claro), que hoje não teria a repercussão que teve na época. Sim, as canções dos jovens de classe média, educados, músicos e poetas como Tom Jobim e Vinicius de Morais, com seus acordes sofisticados e versos elaborados, não encontrariam espaço hoje nas emissoras de rádios, nos canais de TV, nem seriam a escolha prioritária dos jovens que ouvem música pop internacional, dançam pagode e se sacodem ao som do axé music.
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