“Sempre em movimento”: reflexões sobre a crise atual

Autor: Carmen Teixeira - Instituto de Saúde Coletiva (UFBA)
Publicado em: 25 de setembro de 2015
Atualizado em: 5 de janeiro de 2022

Nós, pesquisadores, técnicos, docentes e alunos da área de Política, Planejamento e Gestão em Saúde, principalmente aqueles familiarizados com a obra de Carlos Matus, estamos acostumados a pensar que toda crise é também uma oportunidade. Um momento em que somos convocados a sacudir o pó que se acumula em nossas mentes por conta da rotina que cumprimos nos períodos de estabilidade e abrir as janelas da alma para tentar apreender o novo que se apresenta aos nossos olhos e compreender os fatos, os acontecimentos, as experiências que estão se desenvolvendo ao redor. 

 

Nesses momentos, temos que espanar o pó acumulado em nossa memória, pátina decorrente da repetição, em aulas, palestras e sessões de orientações de dissertações e teses, dos conteúdos consolidados na nossa área, aos quais acrescentamos, quando “produtivos”, novos conhecimentos continuamente acumulados a partir da pesquisa feita nos moldes da “ciência normal” (Kuhn, 2007).   

 

Se tivermos coragem, esse é o momento de rever os caminhos que trilhamos, mapear o território em que nos movemos… e experimentar “pensar diferentemente o que pensamos” (Foucault, 2006; Gros, 2004). 

 

Não necessariamente para abandonar os velhos e confortáveis paradigmas, aqueles que escolhemos ao longo da vida acadêmica e que foram aos poucos se incrustando em nossos discursos e ações a ponto de definir a identidade de cada um… Rótulos que pregamos em nossos currículos… Aparência que apresentamos na cena pública, fonte de segurança ontológica e até de equilíbrio mental. 

 

Mas, quem sabe, ao cotejar o que pensamos com outras “correntes” (não à toa assim chamadas) de pensamento, refletir um pouco mais sobre os conceitos que utilizamos para pensar o mundo, a sociedade, a política e a saúde, em um processo de re-visão que pode contribuir para afinarmos nossos instrumentos conceituais e metodológicos, descartando conceitos inúteis, incorporando outros, aprendendo novos métodos e técnicas, enfim, criando condições para a escuta qualificada das questões emergentes. 

 

Nesse processo, mais que nunca precisamos de disciplina intelectual, de cultivar o hábito da leitura, da reflexão, do diálogo, da análise crítica e do debate de ideias, mas precisamos, sobretudo, de uma abertura ao diferente que nos ajude a entender a perspectiva do outro, deixando de lado os pré-conceitos que muitas vezes impedem que se faça uma apropriação proveitosa de questões, palavras, ideias, proposições e formas de pensar e de agir diante do mundo que não se “encaixam” (outra metáfora poderosa) na forma com que formatamos o nosso pensamento anterior. 

 

“Sempre em movimento” (Sacks, 2015). É o título da autobiografia de Oliver Sacks que li recentemente, perplexa e comovida com sua estonteante sinceridade. Percorri as páginas em que ele relata suas buscas por felicidade pessoal e os caminhos e descaminhos que trilhou ao longo de sua vida profissional até chegar, na maturidade, à consciência plena da sua vocação como clínico, dos seus limites enquanto neurocientista e de quanto seu pensamento se beneficiou da leitura apaixonada dos estudos realizados e das teorias elaboradas por pesquisadores mais organicamente vinculados ao “establishment” da pesquisa científica no mundo atual (ao qual o Brasil e a área de Saúde Coletiva, em particular, se articulam muito perifericamente). 

 

A leitura deste livro me fez lembrar as reflexões de Foucault sobre o “franco falar”, a coragem da verdade, a coragem de buscar e dizer aos outros, a verdade de si, nem que para isso seja preciso desconstruir mitos, arrebentar imagens e mostrar-se alegre e sereno, como Oliver aparece na foto que ilustra a capa do livro. 

 

Sei que esse tipo de postura talvez só seja possível na nossa ”sociedade do espetáculo” (Debord, 1997) quando a morte se avizinha e se sente que não se tem mais nada a perder. Nesse momento, o registro de uma vida, a reflexão sobre quem se é, a partir das escolhas que se fez, tem o sabor de um legado, de um presente, de uma última dádiva oferecida aos amigos. 

 

Quando tudo em volta ameaça ruir, quando a instituição em que trabalhamos enfrenta dias tão difíceis, quando o país em que vivemos experimenta mais que nunca a aguda incerteza do futuro, quando o mundo exibe um cenário de crise econômica, política e moral, injustiça social, guerra e movimentos migratórios acelerados e caóticos… gostaria de recomendar a leitura dessa autobiografia. 

 

E sugerir que guardemos um pouquinho do tempo que temos, entre tantas tarefas na luta cotidiana por permanecermos vivos, lúcidos e atuantes, para estudar, refletir e conversar, compartilhando leituras, trocando ideias.

 

Um pouco disso já estamos fazendo nas sessões do nosso Diretório de Pesquisa em PPGS nas manhãs de sexta-feira. Ler e discutir os textos publicados recentemente por colegas pesquisadores de outras instituições da área ao tempo em que acompanhamos a movimentação em torno das Conferências Municipais, Estadual e Nacional de Saúde sem dúvida tem sido animador. 

 

Um espaço de resistência contra a inércia e o desencanto, um estímulo ao pensamento crítico e um aceno à necessária criatividade política e cultural que necessitamos exercitar cada vez mais, de modo a fazer da crise uma oportunidade de superar a solidão, recriando laços de sociabilidade que nos animem a desenvolver ações que contribuam para a travessia.  

 

Referências bibliográficas: 

DEBORD, G. A sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto Editora, 1997, 240 p. 

GROS, F.. Foucault. A coragem da verdade. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.166 p. 

KUHN, S. T. A estrutura das revoluções científicas, 9ª Ed. São Paulo, Perspectiva, 2007. 

SACKS, O. Sempre em movimento: uma vida. Companhia das Letras, São Paulo, 2015, 354 p.  

 

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