Sem coordenação internacional, haverá mais desigualdade e retrocesso ambiental

Autor: Arilson Favareto
Publicado em: 23 de outubro de 2024
Atualizado em: 2 de dezembro de 2024

Em 2025 se completam dez anos do Acordo de Paris e o balanço é preocupante. Vivemos um momento crítico para o futuro do planeta, cuja face mais visível é a inegável intensificação de eventos extremos. Aumenta a pressão por medidas concretas que precisarão ir além de compromissos vagos e promessas de longo prazo. Com a COP30 se aproximando e a agenda climática global ganhando força, é essencial refletir sobre os avanços e os obstáculos que ainda enfrentamos.

Por isso é tão importante a publicação do relatório independente de um Grupo de Especialistas convidado pela Task Force do Clima do G20. Elaborado por um time de pesquisadores mundialmente reconhecidos, o estudo oferece uma análise precisa sobre desafios centrais que definirão o futuro da ação climática. O documento destaca que os esforços precisam ser intensificados e melhor coordenados, uma vez que o problema não é apenas técnico ou ambiental; é também político, social e econômico. Como um dos coordenadores da Secretaria Executiva deste Grupo de Especialistas, destaco, dentre os vários tópicos abordados, seis temas sensíveis e que merecem atenção. São eles:

1. Metas mais ambiciosas e o papel do G20
Os relatórios da Nações Unidas têm apontado que os compromissos já estabelecidos serão insuficientes para reduzir as emissões de forma a alcançar o objetivo de restringir o aquecimento a 1,5°C. Países em geral, e especialmente os do G20 (responsáveis por 80% das emissões globais e também por 80% do PIB mundial), precisam adotar metas muito mais ambiciosas para conter a crise climática. Embora o G20 não assine acordos mandatórios, como a Convenção do Clima, seu peso político e econômico é imenso nas negociações climáticas globais. Sem o compromisso firme desses países, dificilmente conseguiremos frear o avanço do aquecimento global.

2. Meios de implementação: além das promessas
Não basta anunciar aonde queremos chegar. Mesmo as metas já estabelecidas precisam de melhores meios de implementação. É preciso colocar em prática instrumentos concretos de política pública e articulação entre os setores público e privado que garantam o alcance dos objetivos climáticos pactuados. Uma peça central aqui são as “políticas industriais verdes”, que precisam ser entendidas em um sentido amplo, englobando políticas produtivas que transformem a forma como produzimos e consumimos em todos os setores.

3. Coordenação interna: alinhamento de políticas e setores
Inovações setoriais são importantes, mas terão um efeito limitado se isso for visto como apenas mais um componente de uma agenda governamental. O relatório alerta para o risco de tratarmos as políticas industriais verdes como um programa ou política isolada, enquanto o restante da ação estatal continuar promovendo modelos tradicionais de produção e consumo. Precisamos de uma abordagem integrada, para que as ambições climáticas orientem de maneira coesa e transversal a atuação do Estado e das políticas públicas em todas as áreas. Sem isso pode haver um “jogo de soma zero” para a agenda climática, com os efeitos de alguns investimentos e incentivos em atividades convencionais anulando os resultados positivos obtidos com políticas alinhadas com ambições climáticas mais ousadas.





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