Rio Grande do Sul – o desmantelamento do estado

Autor: Amélia Cohn 
Publicado em: 22 de maio de 2024
Atualizado em: 17 de junho de 2024

1.
A catástrofe climática no Rio Grande do Sul não constitui apenas um alerta sobre as mudanças climáticas. No caso, configura-se mais como uma tragédia repetida como farsa, pois não é a primeira enchente que devasta o estado e a capital gaúcha. Um estado rico economicamente, com relativamente pequena presença de pobres e extremamente pobres, sobretudo se comparado a outros, e dominado pelo agronegócio. Já foi berço de movimentos políticos de várias naturezas, inclusive modernizadores autoritários, e conheceu gestões estaduais e municipais de cunho progressista, tanto política como socialmente.

Eis que é avassalador o retrocesso das últimas gestões, marcadas não só por traços radicais de desmantelamento do estado e desgoverno ético, com privatizações de setores estratégicos das políticas públicas, indiscriminadas e imunes ao controle público, sobretudo o de prevenção de desastres climáticos. As consequências estão aí. Mas também está aí a reação solidária da sociedade brasileira que vem se alastrando como um rastilho.

O governo federal desde o primeiro momento vem cumprindo – e muito bem – a sua parte, sem discriminação alguma por crivos ideológicos ou políticos. Destacam-se aqui a pronta resposta do Ministério da Saúde, com disponibilidade de vacinas, medicamentos e serviços médicos e a Força Nacional do SUS; medidas da área econômica, que permitem reforços financeiros ao estado gaúcho e disponibilidade de benefícios sociais aos atingidos pelas chuvas, acompanhada de serviços de apoio.

Cumpre-se, portanto, o mandato de que cabe ao Estado nacional proteger todos os brasileiros, sem discriminação. Incluídos aqui quilombolas (15 comunidades isoladas, calculando-se um total de 6,8 mil famílias nessas condições) e indígenas (30 mil sofrendo com os impactos das enchentes, estimando-se que 70% dos seus territórios foram afetados).

Impressionante o grau de mobilização da sociedade frente à catástrofe. Doações são feitas, pelas redes sociais divulgam-se formas de organizar tipos de doações, e elas são por fim distribuídas por inúmeros setores organizados da sociedade. Aqui vale destacar que desde o primeiro momento o MST e MTST vem distribuindo refeições, junto com outras iniciativas. E é incrível o destaque nas redes sociais para o salvamento de animais, afinal toda vida conta, tendo como símbolo a persistência e resiliência do cavalo no telhado, que ganhou o nome de Caramelo, transformado em ícone da vítima-herói dessa catástrofe ambiental. Persistência, resiliência e submissão.

2.
Tudo então nos conformes? Não! Há sinais preocupantes que vão além do que vem sendo feito e do fato que a se seguir nesse rumo hegemônico do projeto estadual gaúcho a tragédia se repetirá, como já vem acontecendo nos últimos anos, mas não só lá. O primeiro deles é a proposta pelo executivo estadual de que os recursos que vem sendo repassados pelo governo federal ao estado fossem, em nome de uma maior agilidade no seu manejo, administrados por uma fundação privada. Sem controle público, portanto.

Mais que isso, se o apoio financeiro, inclusive com perdão do serviço da dívida e sua suspensão por um período significativo, não pode ser questionado, tampouco não pode ser desconhecido que no caso a má condução política que segue uma linha de privatização do Estado descontrolada e radical acaba sendo premiada pelo governo federal. São as duas faces da mesma moeda: a ajuda é inegável e obrigatória, mas ao mesmo tempo reforça o mau governo no que diz respeito à gestão voltada ao bem comum.

*Texto publicado originalmente no portal A Terra é Redonda. 





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