Resistência indígena em 2019: há o que celebrar

Autor: Angela Pappiani*
Publicado em: 10 de janeiro de 2020
Atualizado em: 5 de janeiro de 2022

Dezembro, marcado no calendário como o final do que para nós, brancos ocidentais e cristãos, é o ano de 2019, veio carregado de sentimentos contraditórios: alívio, medo, alegrias, expectativas, esperança, indignação, apreensão. Cartões de Boas Festas e com votos para o próximo ano revelam o que cada grupo de brasileiros, cada ilha ou continente, viveu nos últimos 365 dias, dependendo de seu alinhamento ou alienamento político.

 

Para os povos indígenas esse número tem o peso histórico de um sistema-pensamento que valoriza e crê no controle da natureza e submissão dos humanos, na transformação da paisagem, dos valores e sentimentos. Algumas das mais de 300 etnias que convivem com o Brasil hoje conhecem o poder do “povo da mercadoria” — como Davi Kopenawa Yanomami define “os brancos” – há 519 anos. Para os povos originários o ano da transformação, do fim de um mundo e começo de outro, do tempo linear, não é o do nascimento de Cristo, mas o do encontro com o estrangeiro que ocupou seu território e mudou totalmente sua perspectiva de vida, justamente defendendo a cristianização, o salvamento de suas almas. Isso vem acontecendo ao longo dos séculos. Para alguns povos, estamos no ano 300, 200, ou no ano 30 da tragédia do contato. Alguns ainda tentam se manter afastados do calendário, do relógio, do PIB, do RG, do CPF, da internet. Talvez consigam manter sua independência, saúde, conexão e valores por mais tempo, se a sociedade brasileira compreender e aceitar o seu direito ao isolamento, a outro modo de vida.

 

Enquanto isso, a grande maioria da população indígena, em todos os estados da federação, está submetida ao novo modo de vida, ao Agro que é Pop, às leis que deveriam, mas não os protegem, às grandes obras geridas pelo capital para beneficiar alguns poucos corruptos, à devastação que afeta a todos, apesar da cegueira geral.

 

Essa guerra permanente entre forças, entre o povo da mercadoria e o povo verdadeiro, nunca deixou de existir ao longo dos cinco séculos de ocupação, tornando-se mais ou menos visível, independentemente do partido, do governo, da constituição em vigor. Da mesma forma que a resistência, a luta e as conquistas ao longo do tempo assumiram estratégias distintas, mais ou menos eficazes, mas sempre viscerais, um jogo de vida e morte, que defende não só os corpos mas todo um sistema de vida, visível e invisível, conectado ao cosmos e aos espíritos.

 

E nos primeiros dias de 2020, depois de um ano tão intenso e trágico, com assassinatos, invasões, destruição, com a declaração pública de uma nova “Guerra Justa” que justifica todo tipo de violência, o que quero fazer é relembrar e reverenciar essa luta e as conquistas, momentos que devem ser honrados e comemorados como alimentos para fortalecer nossa trajetória.

 

Leia aqui a análise na íntegra

 

Texto publicado originalmente em Outras Palavras.

*Jornalista, escritora e produtora cultural.

 





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