Por uma mudança no padrão de consumo em saúde*
Autor: Ligia Giovanella**
Publicado em: 16 de fevereiro de 2022
Atualizado em: 16 de fevereiro de 2022
A pandemia de Covid-19 foi resultado de um colapso na interação entre a sociedade e a natureza, refletido na deterioração acelerada do meio ambiente e nas mudanças climáticas. Tal colapso, determinado pelos processos produtivos, extrativistas e comerciais do capitalismo global, acirra-se pelas políticas neoliberais de redução dos direitos sociais e do trabalho, com aprofundamento das desigualdades sociais, e representa forte ameaça à vida na Terra.
A América Latina, permeada por essas desigualdades, tornou-se um dos epicentros da crise global de saúde e humanitária que afeta cada vez mais as populações em piores condições socioeconômicas dos países em desenvolvimento e as populações mais vulneráveis do planeta.
Nesse contexto, que escancarou mais uma vez as relações entre saúde e meio ambiente, a pandemia deixa como um de seus legados a necessidade de se ampliar o olhar sobre os sistemas de saúde. É hora de defender, com mais força, a proposta institucional, política e social de um sistema único de saúde, público e universal. E que este seja orientado por uma visão da epidemiologia crítica, na qual é sublinhada a determinação social da saúde e da vida, assim como a determinação dos diferentes modos de produção sobre a vida, não apenas humana, mas do planeta.
É importante considerar uma concepção ampliada de direitos também dos demais seres vivos, em uma nova inter-relação com a natureza, que irá requerer um novo projeto de sociedade, e novos padrões de produção e consumo.
Para alcançarmos um modelo de desenvolvimento mais harmônico com a natureza, como nos preceitos de buen vivir dos povos originários da América Latina, é necessário ainda estruturá-lo com base em uma visão mais abrangente do conceito de sustentabilidade, que inclua a defesa da diversidade sociobiocultural; valores de solidariedade, ética, justiça social e equidade.
É fundamental para a saúde e, especialmente, para a atenção primária no SUS, a compreensão do território com suas comunidades como centro do processo de desenvolvimento, no qual diferentes políticas devem se encontrar de forma coordenada e interagindo entre si, tendo como foco o fortalecimento dos serviços públicos de acesso universal.
A Estratégia Saúde da Família, no Brasil, nosso modelo de APS integral de orientação comunitária, funda-se na vigilância em saúde e no território. Nesse modelo, uma equipe multiprofissional é responsável pela saúde da população em uma determinada área, organizando o trabalho da saúde em diferentes ambientes da comunidade, a partir de necessidades e problemas de saúde em si, mas, considerando, também, sua determinação social para o planejamento das ações de atenção, prevenção e promoção da saúde. Isso implica mediar inciativas intersetoriais para promover a saúde, incentivar e fortalecer a participação social.
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* Texto publicado originalmente no portal CEE-Fiocruz.
** Pesquisadora do CEE-Fiocruz. Integrante do comitê coordenador da Rede de Pesquisa em Atenção Primária da Abrasco.
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