Por que não vacinar as crianças?

Autor: Carmino de Souza e Andrea Von Zuben
Publicado em: 6 de abril de 2022
Atualizado em: 6 de abril de 2022

Vou começar este texto com um relato vivido por mim em 1994. Neste ano, exercia o cargo de Secretário de Saúde do Estado de São Paulo. O Brasil recebeu nesse ano o certificado de país “livre da poliomielite”, fato absolutamente auspicioso tendo em vista que essa ainda é uma doença que nos assola, mesmo estando em 2022, em países da Ásia, África e mesmo nas Américas. Nestas festividades e eventos, recebemos a visita da Sra. Heloisa Dunshee de Abranches, esposa do Dr. Albert Sabin. Infelizmente, o Dr. Sabin havia falecido aos 86 anos no ano anterior. A Sra. Heloisa, fundadora do Instituto Sabin de Vacinas, faleceu em 2016 aos 98 anos. Foi uma grande honra e aprendizado estar com ela.

A poliomielite ou paralisia infantil, é uma doença causada por vírus e afeta o sistema nervoso central promovendo, principalmente, a paralisia dos membros inferiores. O Dr. Sabin foi o primeiro a demonstrar o crescimento deste vírus em amostras de tecidos humanos. Sabin desmentiu a hipótese de que o contágio do vírus se dava pelo nariz e apontou como via primária o trato gastrointestinal. Defendeu a administração dos vírus vivos e atenuados por via oral com a objetivo de promover a imunidade mais duradoura e comunitária quando comparada a injeção de vírus mortos, desenvolvida, pouco tempo antes, pelo Dr. Jonas Salk.

Importante e fundamental, é que isto não aumentava os riscos de contaminação e de doença. O Dr. Albert Sabin esteve várias vezes no Brasil acompanhando pessoalmente o combate à poliomielite. Em 1967 foi agraciado pelo governo brasileiro com a Grã-Cruz do Mérito Nacional. Em 1973 foi instituído no Brasil o plano nacional de imunizações (PNI), que permanece até hoje, sendo um dos programas em saúde mais exitosos de nosso país.

Mas porque estou contando esta história? Quando esteve conosco em 1994, em conversas informais, a Sra. Heloisa me contou que “nem tudo foram flores” neste relacionamento entre o Governo Brasileiro e o próprio Dr. Sabin. Como temos assistido na introdução das vacinas contra o SarsCov2 para o grupo pediátrico, houve muito dúvida e insegurança na introdução da vacina Sabin, nova e com um modo de ação muito próprio e inédito.

A história mostrou, posteriormente, que a vacina Sabin revolucionaria o enfrentamento da poliomielite e abriu as portas para todas as outras vacinas e ao PNI, criando uma cultura que nunca mais foi modificada no Brasil. A Sra. Heloisa nos disse que na véspera da primeira campanha em larga escala de utilização da vacina Sabin, o então ministro da saúde do Brasil ligou para o Dr. Sabin e disse que o Conselho de Estado do Brasil estava reunido e estava inseguro sobre se deveríamos ou não fazer esta campanha. O Dr. Sabin teria dito ao ministro: “Ministro, o Sr. só tem duas alternativas: confiar em mim ou não confiar em mim. Se não estão confiando, por favor, parem tudo”.

Obviamente, seria confiar na ciência e no cientista. Pois bem, nada foi suspenso e tivemos o sucesso impressionante das vacinas no Brasil, com melhoria de todos os indicadores de saúde nas crianças a partir de então e a eliminação da poliomielite em nosso meio. Assim como “ontem”, devemos confiar na ciência e nos cientistas e entregar a eles a responsabilidade da evolução fundamental a vida e ao bem-estar de nossa população.





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