Por que a esquerda perde eleições?

Autor: Álvaro García Linera
Publicado em: 20 de agosto de 2025
Atualizado em: 25 de setembro de 2025

As esquerdas e os progressismos no governo não perdem eleições por causa dos trolls das redes sociais. Também não porque as direitas sejam mais violentas, e muito menos porque o povo que foi beneficiado por políticas sociais seja ingrato. As batalhas políticas nas redes não criam do nada ambientes político-culturais expansivos nas classes populares majoritárias. Elas radicalizam e conduzem por caminhos histéricos. Mas sua influência requer, previamente, a existência social de um mal-estar generalizado, de uma disposição coletiva ao desapego e rejeição de posições progressistas.

Da mesma forma, as extremas direitas, autoritárias, fascistoides e racistas sempre existiram. Vegetam em espaços marginais de militância enfurecida e enclausurada. Mas sua pregação se expande devido à deterioração das condições de vida da população trabalhadora, à frustração coletiva deixada por progressismos tímidos ou à perda de status de setores médios.

E quanto aos que argumentam que a derrota se deve ao “desagradecimento” daqueles setores anteriormente beneficiados, esquecem que os direitos sociais nunca foram uma obra de caridade governamental. Foram conquistas sociais ganhas nas ruas e no voto. Por tudo isso, sem desculpas, um governo progressista ou de esquerda perde eleições por seus erros políticos.

E esses erros podem ser múltiplos. Mas há uma falha que unifica os demais: o erro na gestão econômica ao tomar decisões que atingem o bolso da grande maioria de seus apoiadores.

No Brasil, o golpe de Estado parlamentar de 2016 contra Dilma Rousseff, impulsionado pelas frações mais antidemocráticas do espectro brasileiro, se apoiou no mal-estar econômico que já se arrastava há vários anos e que teve, no ajuste fiscal de 2015, uma nova volta do parafuso na contração da renda popular.

Na Argentina, o peronismo perdeu as eleições de 2023 devido ao aumento da inflação durante a gestão de Alberto Fernández. Embora a tendência inflacionária seja uma constante na economia argentina há décadas, há uma fronteira histórica que, uma vez ultrapassada, leva a uma liquefação das lealdades políticas populares, lançando-as a se agarrarem a qualquer proposta, por mais aterradora que seja, que resolva essa asfixiante volatilidade do dinheiro. A anomalia política Milei é a forma distorcida de canalizar a frustração para o ódio e a punição.





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