Populismo: uma lógica política necessária?
Autor: Sílvia Almeida*
Publicado em: 8 de janeiro de 2019
Atualizado em: 5 de janeiro de 2022
O jogo eleitoral brasileiro se caracteriza não pelo debate de ideias que expressem os projetos de governo de partidos políticos e seus representantes, mas sobretudo o que toma a cena é a capacidade de ampliação do poder de carisma de lideranças políticas que procuram atrair sobre suas imagens a associação de atributos com os quais o povo encontre identificação. Não é à toa que a maior expressão de voto da disputa eleitoral de 2018 – Jair Bolsonaro – encarna a personificação do líder populista. Aprendemos a nos relacionar com a política de forma populista? O apelo à redenção de um líder é o que nos move na política? Qual a lógica que preside a construção de um tipo de relação populista? Estas questões venho problematizar a partir da leitura crítica da obra de Ernesto Laclau, intitulada “A razão populista”.
Laclau propõe-se a compreender um fenômeno social, o populismo, não apenas em suas manifestações fenomênicas, mas buscando encontrar as razões implícitas que permitem explicá-lo a partir de uma abordagem psicolinguística, recorrendo à psicanálise como base de sustentação da construção de sua teoria política a respeito do populismo. Ao enveredar pela literatura sobre o assunto, Laclau constata a ausência de clareza conceitual, com tentativas malogradas de descrições das características principais do populismo; intuito este que esbarra na impossibilidade de definição do termo em razão do fato de que a essência do fenômeno não se encontra nos seus conteúdos sociais manifestos, que podem assumir as mais diferentes expressões ideológicas, de direita ou de esquerda. Laclau defende que o populismo é presidido por uma determinada lógica política e recusa um viés presente na literatura, que aborda o populismo de forma depreciativa, acusando-o de vagueza ideológica, irracionalidade, manipulação, etc. Em vez disso, Laclau procura explorar as dimensões performativas desses processos de simplificação. O que esta vagueza e imprecisão buscam realizar?
A chave anunciada por Laclau para a compreensão do populismo está na lógica que orienta a formação das identidades coletivas, apoiada nos processos de significação e de constituição afetiva. Para isso, ele irá buscar as contribuições da psicanálise, particularmente de Freud e de Lacan, para respaldar os pressupostos de sua teoria.
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* Psicóloga, Mestre em Saúde Comunitária e Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA).
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