Política, Economia e Corrupção: A Reconfiguração do Bloco no Poder no Brasil
Autor: Luiz Filgueiras
Publicado em: 26 de abril de 2017
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022
A história do Brasil contemporâneo é marcada por inúmeros eventos nos quais, política, economia e corrupção se entrelaçam fortemente; algumas vezes provocando rupturas institucionais que redefinem e/ou reacomodam o “bloco político no poder ” e reorientam as políticas econômico-sociais do Estado. A atual conjuntura brasileira ainda é um desdobramento do último desses eventos, qual seja: o impeachment da presidente Dilma Rousseff – cujas gravíssimas implicações econômicas, sociais e políticas agora, e no futuro, estão cada dia mais evidentes.
Como eventos precursores, e exemplos paradigmáticos desse mesmo tipo, podem ser citados, entre outros, os seguintes: a campanha contra a corrupção (o “mar de lama” lacerdista) que culminou no suicídio do presidente Getúlio Vargas (1954); a eleição de Jânio Quadros, impulsionada pelas denúncias de corrupção no Governo JK e simbolizada pela sua famosa vassoura (1961); o Golpe Militar de 1964, cujas motivações, além do anticomunismo, também incluíam, com muita ênfase, o combate à corrupção e aos corruptos; a eleição de Collor de Mello, o “caçador de marajás”, que iria purgar todos os males do país (1989) e sua posterior deposição, através de seu impeachment, ponto culminante de uma campanha de denúncias e investigações sobre um estado generalizado de corrupção em seu governo (1992).
Adicionalmente, também com base em denúncias de corrupção, podem ser lembradas as tentativas, não exitosas, de impedir a posse de um presidente eleito (JK em 1955) ou de depor um presidente no exercício de seu mandato: Fernando Henrique Cardoso, em 1999 (acusado de compra de votos de deputados para aprovação da emenda que permitiu a sua reeleição) e Lula da Silva, em 2005 (acusado de coordenar um esquema de compra de fidelidade de sua base parlamentar que ficou conhecido como “mensalão”). Desde logo, conforme evidenciado por todos esses exemplos, constata-se que o sujeito político acusado de corrupção é sempre aquele que está no governo, ou vai assumi-lo; ou seja, a bandeira anticorrupção é sempre uma arma utilizada pelas forças políticas que não estão no poder, mas querem chegar a ele antes das próximas eleições, através de um atalho.
O ponto comum a todos esses eventos é a criação e o uso instrumental de movimentos contra a corrupção para alavancar politicamente interesses particulares de classes e frações de classe, e de partidos, grupos e corporações mais específicos, que não podem ser explicitados enquanto tal, através de campanhas pela moralidade pública. Campanhas que, sabidamente, sensibilizam parcelas importantes, quando não majoritárias, da sociedade – em geral, movidas pelo senso comum, isto é, pela forma mais efetiva e eficiente assumida pela ideologia, quando, conforme Antonio Gramsci (2002a), esta se corporifica em uma crença, em uma fé; e por um tipo de apreensão dos fenômenos sociais que se esgota na sua aparência imediata, fenomênica. Mas, a experiência e a história têm demonstrado, sistematicamente, que as campanhas e movimentos políticos contra a corrupção, no Brasil e em todos os lugares do mundo, se constituem, invariavelmente, na ponta do iceberg.
No caso específico atual, do processo que culminou com a deposição da presidente Dilma Rousseff, a parte do iceberg que não se encontra a vista, que está além da aparência fundamentalmente ético-moral do fenômeno, é a disputa política e econômica travada por duas distintas frações da burguesia brasileira (Boito, 2013).
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