Pela Vida das Mulheres Negras, vamos todas/os/es
Autor: Emanuelle Goes
Publicado em: 27 de julho de 2017
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022
“A noite não adormece nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia …”
Conceição Evaristo
Eu gostaria de escrever que não dormimos pra viver intensamente tudo de bom que tem a vida, mas a noite não adormece nos nossos olhos porque vigiamos o racismo que fica na espreita, aguardando nosso cochilo. Não dormimos porque está sob nós o peso do racismo, em nossos corpos que se estende à comunidade inteira.
Na madrugada vigiamos na janela, tal como a lua que vigia, a demora do menino negro que não chega, o menino-filho-pai-irmão-vizinho-companheiro, a tormenta da espera, que seja mais uma vez o atraso: culpa do transporte ou porque a noite estava linda e se estendeu.
No Brasil estima-se que mais de 42 mil adolescentes de 12 a 18 anos poderão ser vítimas de homicídio nos municípios com mais de 100 mil habitantes entre 2013 e 2019 (UNICEF). E dos 30.000 jovens vítimas de homicídios por ano, 77% são negros. As mães dos filhos assassinados seguem a vida adoecidas, a saúde integralmente comprometida, vivendo na ausência de tudo.
A tripla ou mais jornadas de trabalho que não nos deixam dormir. Deita tarde para organizar a vida da família, o acesso a bens duráveis como a máquina de lavar roupa, que poderia contribuir para um cochilo, chega de forma lenta e hierarquizada até as mulheres, cerca de 66% das mulheres negras urbanas que são chefes de família não têm máquina de lavar, as mulheres negras rurais chegam a 90%.
Levanta cedo, percorre a cidade por horas a fio para chegar no trabalho, a imobilidade urbana não nos deixa dormir, o uso do tempo não é favorável. São as mulheres negras sudestinas (15,5%) que perdem mais tempo no deslocamento da residência ao local do trabalho, mais de uma hora e meia, enquanto apenas 5,4% das mulheres brancas sulistas estão nesta situação.
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