Para garantir igualdade de gênero, política científica deve dialogar com política de cuidado
Autor: Márcia Tait
Publicado em: 11 de fevereiro de 2025
Atualizado em: 15 de abril de 2025
A busca pela igualdade de gênero no Brasil demanda uma abordagem integrada que reconheça a interdependência entre diferentes esferas políticas. A recente aprovação da Política Nacional de Cuidados, sancionada pelo presidente Lula em dezembro de 2024, marca um avanço significativo na valorização dos trabalhos de cuidado, predominantemente realizados por mulheres. Paralelamente, a área de ciência, tecnologia e inovação (C&T) enfrenta desafios persistentes de desigualdade de gênero e para fortalecer o desenvolvimento de tecnologias para inclusão e sustentabilidade socioambiental.
Este texto propõe a articulação entre a política de cuidados e as políticas de C&T, destacando como essa integração pode promover direitos mais equitativos para as mulheres e impulsionar a produção científica e tecnológica no país.
“Cuidado” é um conceito polissêmico. No âmbito da política recém formulada, cuidados se referem a trabalhos fundamentais para a manutenção da sociedade, feitos principalmente no âmbito doméstico e por mulheres, de forma gratuita ou remunerada — como limpeza, preparação de alimentos, gestão da casa, cuidados com crianças, idosos e dependentes e apoio emocional. Como apresentado no documento para a política, os arranjos sociais para provê-los são desiguais, injustos e insustentáveis e recaem sobre as mulheres, especialmente aquelas racializadas e de classes populares.
A sobrecarga, desvalorização e estigmatização dos trabalhos de cuidados são condicionantes e condicionadores de desigualdade socioeconômica e de gênero. Os dados oferecidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) mostram que as mulheres ocupam o dobro dos trabalhos em tempo parcial, a maioria dos postos com menores salários (precários e terceirizados), embora já sejam a metade das chefes de família. Outras pesquisas também mostram a sub-representação feminina em cargos políticos.
Essa relação desigual é um dos motivos que torna digna de nota a escolha inédita pelo presidente Lula em 2022 de uma mulher como Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovações do Brasil, Luciana Santos. É ainda mais incomum que a ministra seja, simultaneamente, engenheira e liderança política do PCdoB.
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