Os Yanomami são um paradigma ético mundial
Autor: Jelson Oliveira
Publicado em: 7 de fevereiro de 2023
Atualizado em: 7 de fevereiro de 2023
As cenas são perturbadoras e nos enchem o coração de dor e indignação. Indígenas esquálidos, famintos e doentes, de quem foi retirada a mínima possibilidade de sobrevivência digna em seus territórios, espoliados pelo garimpo e demais forças do crime que contaram com a negligência e o incentivo das autoridades que, antes, deveriam coibi-las. A tragédia que se abate sobre os povos indígenas brasileiros, especialmente os Yanomami, é um dos mais graves crimes já cometidos na história recente brasileira – já tão cheia de horrores.
A gravidade da situação é ainda maior se pensarmos que aquela é apenas a ponta de iceberg da imensa crise ambiental, agravada nos últimos anos pelo negacionismo e pela atitude deliberada de entregar os bens naturais da nação às forças mais retrógradas, contando com o desmantelamento das estruturas e instituições criadas para garantir minimamente o ordenamento jurídico naqueles fundões da pátria, onde permanecem, esquecidos – não fosse pelo horror da tragédia – povos inteiros, vítimas da depredação que engole e mata, junto com eles, os rios, os animais, a floresta como um todo. O que se assiste é o resultado do descaso e da ignorância de todo o Brasil em relação à Amazônia, terra esquecida na geografia política, mas amplamente usurpada por quem extorque suas riquezas.
O passo mais importante para a superação da crise tem a ver com o reconhecimento dos indígenas e de seus territórios como espaços éticos e políticos, lugar de vida e de sabedoria, onde se manifestam conhecimentos ancestrais e formas de viver que se contrapõem ao já reconhecidamente falido modo de vida da maior parte da sociedade moderna, responsável pela crise ecológica que coloca, neste momento, a vida na Terra em xeque. Cada um desses territórios representam um verdadeiro espólio moral da humanidade, uma prova de que é possível viver de forma mais integrada à natureza e usufruindo de seus bens sem destruí-los. Cada povo indígena é inventor de diferentes “cosmotécnicas” que incluem modos de caça e pesca, instrumentos de arte e de culto, religiosidades e expressões culturais, formas de relação interpessoal e com a natureza, conhecimentos medicinais e farmacológicos, geológicos, ecológicos e climáticos, traduzidos em crenças, mitos, contos, histórias e inúmeras formas de expressão.
*Publicado originalmente no portal Diplomatique Brasil.
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