O sistema de saúde no Brasil
Autor: Samuel Kilsztajn
Publicado em: 24 de setembro de 2025
Atualizado em: 22 de outubro de 2025
O Sistema de Saúde no Brasil é hoje segmentado em três categorias – Sistema Único de Saúde (SUS), Planos de Saúde (Saúde Suplementar) e Desembolso Direto. O SUS é universal e gratuito; os Planos de Saúde oferecem serviços mediante pagamento de mensalidades; e o Desembolso Direto é usado em pagamentos por serviço prestado: consulta, exame e internação hospitalar.
Cerca de 150 milhões de brasileiros, 71,0% da população, utilizam exclusivamente o SUS, 23,4% os Planos de Saúde e 5,6% o Desembolso Direto. Existem duas modalidades de Planos de Saúde: para pessoas físicas (individual e familiar); e para pessoas jurídicas (planos coletivos) – que abrangem, respectivamente, 6,2% e 17,2% da população. Vale lembrar que o SUS é responsável pela vigilância epidemiológica e sanitária, vacinas e transplantes.
Os planos coletivos atendem empresas (planos empresariais) e associações (planos por adesão). A maior parte dos Planos de Saúde, 13,5%, é contratada por empresas, tendo seus funcionários e dependentes como beneficiários (algumas empresas pagam os planos integralmente, outras subsidiam apenas uma parcela do valor). As associações (entidades jurídicas de caráter profissional, classista ou setorial) são responsáveis por 3,7% dos Planos de Saúde.
A segmentação do sistema de saúde reflete diretamente a distribuição da renda entre as camadas sociais da população. As camadas de alta renda utilizam principalmente o Desembolso Direto e os Planos de Saúde para pessoas físicas. Os Planos de Saúde empresariais, essencialmente, foram disseminados por pressão dos trabalhadores organizados do mercado formal de trabalho. As camadas de baixa renda ficam sujeitas a filas e longos períodos de espera para consultas e, principalmente, para exames e internações pelo SUS.
As experiências com o SUS são muito diversas. De qualquer forma, os pontos mais críticos do SUS são o subfinanciamento, o acesso e o tempo de espera para o atendimento. Nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), deve-se passar obrigatoriamente e esperar, dependendo da cidade, por cerca de dois meses para ser atendido pelo clínico geral; um tempo variado e longo para ser atendido por um especialista; e outro tempo variado e longo para exames e eventuais internações hospitalares.
No extremo oposto, o Desembolso Direto garante rápido acesso e, para quem pode arcar com os custos, internações hospitalares com hotelaria cinco estrelas. A grande desvantagem do Desembolso Direto, sem falar no dindim, é que tanto a equipe médica como o hospital podem eventualmente confundir uma pessoa com um freguês – o que eu acho um tanto quanto problemático. E, talvez, dado o protocolo e os procedimentos padronizados, a equipe médica nem saiba mais quais são os limites entre a saúde do paciente, por um lado, e seu interesse financeiro e o da instituição para a qual trabalha, por outro.
Vou me permitir, perdoem a ousadia e a indelicadeza, narrar uma experiência minha com o setor automotivo. Não tenho, mas já tive carro e contratei uma companhia de seguros, que me presenteou com um exame gratuito dos amortecedores do automóvel. A empresa luxuosa, instalada em amplo ambiente, possuía impressionantes equipamentos modernos e computadorizados.
Colocaram meu carro sobre um chassis vibrante, colheram desenhos mirabolantes, me entregaram um laudo técnico e disseram, “a decisão é sua, mas o senhor está pondo em risco a sua família”. Contudo, o profissional e incorruptível mecânico Branko Hubsch, que é descendente de mecânicos e pai do Alexandre (que hoje ocupa o posto do Branko, que se aposentou), sentou em cima do capô, chacoalhou o carro e disse, “os amortecedores estão perfeitos, pode viajar sem susto”. E eu ainda corria o risco de a empresa luxuosa trocar os originais do meu automóvel por amortecedores de segunda linha.
Do ponto de vista da saúde, considero que o segmento mais trágico é o dos Planos de Saúde. A equipe médica muitas vezes solicita desnecessários exames e intervenções porque “não vai lhe custar nada” (por outro lado, existem planos que se omitem, que se recusam a autorizar necessários exames e internações). Você não vai pagar nada, mas a clínica vai receber recursos de seu Plano de Saúde e conseguir amortizar os seus equipamentos.
*Texto publicado originalmente no portal A Terra é Redonda.
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