O relógio e a delicadeza
Autor: João Carlos Salles
Publicado em: 7 de março de 2025
Atualizado em: 15 de abril de 2025
1. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.” Talvez essa seja a frase mais reproduzida em cartazes e camisetas, sempre acompanhada da icônica foto do Che, a imagem de um revolucionário. Ainda que Che Guevara nunca a tenha enunciado exatamente assim, a frase continua a expressar o melhor espírito da militância e nos oferece uma chave humana única, a nos inspirar em meio a uma dura luta de resistência contra obscurantismos e ditaduras.
Agora, porém, esse tipo de sensibilidade parece apartada da política, de qualquer linha política. No chão duro da gestão e das lutas partidárias, a alma delicada pode até ser acusada de despreparo e fraqueza. A política seria para os fortes e, em geral, feita sem deixar testemunhas. Nesse campo, portanto, estaria abolida qualquer sensibilidade excessiva — como a que, outrora, com o perdão da impropriedade, diziam ser feminina.
A sensibilidade, ao contrário, deveria ser a própria medida do humano. Infelizmente, costuma-se endurecer com o concomitante sacrifício de qualquer ternura. Esquecem muitos que, com isso, a completa rispidez, sobretudo no detalhe, pode deixar marcas terríveis. Conseguimos, muita vez, sobreviver a grandes ataques, mas todo nosso sangue pode esvair-se por um corte mínimo, quase à flor da pele.
É claro que alguma selvageria faz parte da interação humana, como se fora um traço perene de toda sociedade. Não cabe aqui nenhuma ilusão. Porém, essa atitude do tipo “não é nada pessoal, são apenas negócios” pode ser a regra em outro contexto que não o da política, uma vez que esta sempre há de exigir justificativas, e essas são irredutíveis a meros resultados.
2. Um teste da rudeza política precisa ser formulado, indicando quem tem mais chances de sobreviver e vencer na política e quem, por outro lado, pode representar uma visão humana e progressista. Arrisquemos um possível questionário — e resta a curiosidade em saber a opinião do eventual leitor, caso queira associar as características abstratas descritas abaixo a nomes de nossa política, embora esta nossa especulação seja tão somente, como se diz, uma mera obra de ficção.
Os políticos não se distinguem por terem mais ou menos inteligência, vale lembrar. A inteligência é um dado de destino, estando ela, ademais, bem distribuída por todas as categorias, de sorte que não implica por si só traços virtuosos de caráter. Tendo isso em conta, podemos perguntar quem costuma vencer a luta política:
• Quem atropela seus adversários e desrespeita interesses alheios ou quem hesita em atravessar um sinal?
• Uma pauta progressista ou valores tradicionais e reacionários?
• O democrático na gestão ou o autoritário?
• Quem representa valores ou quem luta por interesses?
• Prevalecem os realistas ou os tocados pela utopia?
• Quem se mede pela óbvia superioridade da força ou quem se inclina por argumentos, detalhes e, quem sabe, lenga-lengas?
A lista de questões pode ser ampliada em muito, em traços largos ou acerca de decisões imediatas, visando a desvelar aspectos ideológicos, psicológicos, políticos e intelectuais. Se não nos enganamos no diagnóstico, afirma-se amiúde a crueldade da pragmática política. As divisões da infantaria tendem sempre a prevalecer sobre os cuidados da banda de música. E ganha um doce quem souber elaborar uma classificação das personalidades ora no poder ou fora dele, neste momento ou em outros, proporcionando o poder efetivo dos governantes em conformidade com a cadeia de características desse teste — ou de algum outro mais sagaz e apropriado.
De nossa parte, arriscamos privadamente uma simulação, sem discriminar nomes, pois alguns são óbvios demais para merecerem ser citados. Nada tinha de improvável a conclusão pavorosa a que chegamos de poderem parecer mais aptos para a política e terem mais poder aqueles capazes de reunir as características, digamos, de serem ideologicamente reacionários, politicamente autoritários e pessoalmente grosseiros.
Um absurdo, sem sombra de dúvida; mas tais atributos podem ser lidos como aptidão para a política e mais propícios à obtenção de resultados, de modo semelhante a como a competição parece a muitos preferível por ser ela capaz de nos fazer chegar ao “melhor dos resultados”, mesmo ao preço de extrair o pior das pessoas. Por outro lado, aplicando o mesmo teste, espíritos sensíveis, corteses e dispostos a múltiplos “considerandos” estariam condenados ao fracasso e à obsolescência.
Dada essa taxonomia, com a projeção de cenários infernais, quem sabe até que ponto podem chegar essas pessoas rudes no exercício do poder. Tampouco podemos prever o quão subservientes a seus desmandos podem ser os que, sem a devida altivez, lhes atribuem méritos que estão longe de ter ou direitos que lhes deveríamos recusar.
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