O que tem nos definido até então? 2020 escancarou, mas também…
Autor: Paloma Silveira*
Publicado em: 20 de novembro de 2020
Atualizado em: 6 de janeiro de 2022
Na minha infância e adolescência, período entre as décadas de 1980 a 2000, aprendi que os portugueses “descobriram” o Brasil e que nessa “descoberta” foi estabelecida uma relação harmoniosa de trocas de produtos entre os europeus e indígenas. A escravidão dos ditos “não-civilizados”, indígenas e negros, parecia uma necessidade. A catequização importante para “civilizá-los”. O Brasil colonial tornou-se Império, depois República, com algumas lutas e resistências, mas sem muita importância. Significativos foram Dom Pedro I, que rompeu com o pai e declarou a independência do Brasil; sua neta, a princesa Isabel, que com benevolência assinou a Lei Áurea; e os militares que proclamaram a República com o povo assistindo “o espetáculo” sem entender muito bem o que era aquilo, afinal, as coisas mudaram para continuarem sendo as mesmas.
Nessa narrativa única, acrítica, linear e um tanto fragmentada com acontecimentos desconectados de outros contextos e que pareciam ocorrer de modo sucessivo sem considerar a processualidade histórica do passado, do presente e de projeções do futuro, o Brasil foi sendo desenhado como uma “bela e recatada” nação católica miscigenada, com sua aclamada democracia racial. Essa forma racista, misógina, patriarcal e classista de contar a história brasileira certamente não se restringiu àquela escola particular de pessoas, predominantemente brancas e de estratos sociais médios localizada na cidade mais negra fora da África, Salvador/BA. Djamila Ribeiro (2019), nascida em 1980 na cidade de Santos/SP, ao compartilhar algumas experiências narra que “o mundo apresentado na escola era dos brancos, no qual as culturas europeias eram vistas como superiores, o ideal a ser seguido” (24p.).
Trata-se de uma versão da história sob o ponto de vista dos dominantes, que ainda continua colonizando corações e mentes, apesar do já reconhecido falseamento da realidade. Além de diferentes intelectuais como, por exemplo, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, analisarem a história brasileira criticamente e a partir do racismo que a estrutura, foram publicizados recentemente os primeiros resultados do projeto “DNA Brasil”, que investiga o genoma brasileiro, mostrando como o país foi constituído pela violência sexual, os estupros de mulheres negras e indígenas por homens brancos europeus, e pelo extermínio dos homens indígenas (GOMES, 2020). São esses os fundamentos – violências, genocídios, autoritarismos e atrocidades – que têm definido hegemonicamente nossa humanidade, até então?
Dedico esse texto a todas pessoas que se insurgem e insurgiram contra as opressões e injustiças, que sonham/sonharam e se movem/moveram para concretizar os ideais de outros mundos possíveis. Agradeço a Gurgel e Aninha pela leitura, sugestões e partilhas diárias.
*Mulher cis, heterossexual, reconhecida socialmente como branca, professora, psicóloga e às vezes artista. Mestra em Psicologia pela UFPE e Doutora em Saúde Coletiva pelo ISC/UFBA.
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