O Paradigma do Choosing Wisely
Autor: Luis Cláudio Correia
Publicado em: 14 de março de 2017
Atualizado em: 6 de janeiro de 2022
Na história da aviação comercial, quantas vidas foram salvas pelos amarelos coletes salva-vidas? Segundo fontes confiáveis, nunca houve uma vida salva por este aparato. Mas então, por que as empresas aéreas continuam a investir nisso? A resposta está na necessidade de gerar “segurança perceptível”, mesmo que a percepção não tenha relação com “segurança real”. Assim, não nos surpreende que recebemos instruções de como usar o colete antes da decolagem de voos que não sobrevoam a água.
No exemplo dos coletes, os passageiros não sofrem prejuízo. Por outro lado, vários atos médicos que geram “segurança perceptível” reduzem a “segurança real”. Em geral, não estamos atentos à diferença entre “segurança perceptível” e “segurança real”.
Médicos são tomadores de decisões em circunstâncias incertas. Decisões sábias (wise) aumentam a probabilidade de sucesso em nosso intuito primário: proporcionar algum tipo de benefício clínico, reduzindo consequências negativas não intencionais. No entanto, um obstáculo natural à “sabedoria” é que frequentemente esta não é acompanhada pela lógica do senso comum. Esta lógica é a responsável pelo excesso de atos fúteis em medicina, que (surpreendentemente) não trazem benefício concreto, restando ao clientes desfrutar dos prejuízos não intencionais.
Foi desta percepção que os americanos criaram a campanha Choosing Wisely em 2012, hoje difundida por diversos países. Nesta campanha, solicitou-se a cada especialidade que pontuassem 5 atos médicos que deveriam ser evitados de rotina. Isso é uma mudança de paradigma, pois normalmente médico pensa no que fazer, esquecendo o que não deve fazer. Surge a ênfase ao paradigma do “less is more” (menos é mais).
Observem em alguns exemplos (www.choosingwisely.org) como as recomendações fogem ao senso comum, embora sejam corretas e embasadas em evidências: evitar PSA ou toque retal de rotina em homens assintomáticos (não reduz mortalidade), evitar ressonância magnética em indivíduos com dor lombar recente (esperem passar), evitar eletrocardiograma anual, teste de esforço ou Rx de tórax na ausência de contexto clínico, não realizar tomografia em crianças com trauma de crânio leve (radiação), não dosar vitamina D em indivíduos com baixo risco nutricional (overtreatment) e por aí vai.
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