O medo e a esperança

Autor: João Carlos Salles
Publicado em: 25 de junho de 2024
Atualizado em: 9 de agosto de 2024

Contra a destruição da universidade pública

1.
Lula declarou não ter medo dos reitores; não foram eles que lhe teriam mordido o dedo que perdera em uma fábrica. A declaração parece estapafúrdia. Os reitores não expressam hoje nenhuma resistência especial ao governo, nem se posicionam como seus principais adversários, como se estivessem na linha de frente do combate à política do governo para a educação superior. Lula pareceria estar, assim, chamando para a briga quem está tão somente disposto a colaborar.

Caberia até duvidar que um político experiente a tenha proferido, sobretudo estando na condição de presidente – como duvidamos um dia que um ministro da educação pudesse dizer que as universidades eram lugar da balbúrdia. Na verdade, o contexto da fala, ao assistirmos o vídeo, dá a entender algo bem diverso. Ele simplesmente não se constrangeria com reitores, não se incomodaria em recebê-los e, à diferença do inominável antecessor, já o teria feito mais de uma vez, não tendo ademais motivo algum para ter raiva dos reitores, que, afinal, não lhe arrancaram o dedo.

Em suma, Lula não estava confrontando os reitores, nem os chamava para uma briga. A fala é bem mais clara e generosa que sua transcrição inquinada, embora a frase continue sendo infeliz. E não há contexto que a redima por completo, sendo, ademais, triste a constatação: Lula, que, para tantos de nós, vocaliza a esperança, passa agora a incluir a palavra “medo” em seu discurso – no caso, um medo que ele certamente não precisaria nem deveria ter, mas que nos obriga à reflexão, pois, como já se disse, as palavras não caem no vazio.

Em sendo assim, outra questão se impõe. As universidades têm motivo para ter medo de Lula? Parece também que não. Afinal de contas, a comunidade universitária não se arrepende de, em ampla maioria , ter apoiado sua eleição, nem se constrange pelos muitos títulos de doutor honoris causa que lhe foram concedidos. Não esquece, entre diversos aspectos, a expansão das universidades, o apoio às ações afirmativas; não esquece os recursos destinados às ciências e à cultura. Além de tudo, é cristalina a certeza de não haver termo de comparação entre o eventual erro que ele possa cometer em atos e falas e o puro lixo obscurantista que derrotamos e tudo faremos para que não retorne.

Feita essa ponderação, temos, contudo, muitos motivos para temer, sim, ameaças que continuam a tomar corpo inclusive no atual governo. Continua em curso e é acelerado um processo de destruição da universidade pública tal como a conhecemos ou, melhor ainda, como a desejamos, enquanto parte essencial de um projeto de nação soberana e radicalmente democrática. Os sinais são muitos, alguns antigos, enquanto outros tornam-se agora mais fortes. Vejamos brevemente alguns desses traços.

*Texto publicado originalmente no portal A Terra é Redonda.





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