O julgamento de Lula e o mercado financeiro*

Autor: Flávio Fligenspan**
Publicado em: 6 de fevereiro de 2018
Atualizado em: 5 de janeiro de 2022

Desde a segunda metade da década de 1970, Lula sempre se mostrou mais um homem de extrema capacidade de entendimento do ambiente político em que vivia e um hábil negociador do que um político radical de esquerda. Foi assim que construiu sua carreira sindical, fez nascer e crescer o PT e governou por dois mandatos com muito sucesso. Mas também cometeu erros e se equivocou muitas vezes. Entre seus maiores erros talvez esteja o de pensar que em algum momento por volta da metade da década de 2000 a elite do país o tenha aceitado, assim como teria aceitado o PT e várias de suas bandeiras de resgate da histórica dívida social com as camadas de baixo da nossa estratificação social.

Depois do susto inicial com a possibilidade de Lula se eleger em 2002, o ambiente político e econômico se acalmou, nenhuma transformação radical aconteceu – bem pelo contrário, na economia Lula seguiu o que vinha fazendo FHC –, nenhum preceito da ordem liberal foi atacado e o capitalismo brasileiro seguiu sua rota, distribuindo fartos rendimentos ao sistema financeiro e ao setor produtivo em geral, com algumas exceções. No entanto, havia algo que incomodava os poderosos, a política de redistribuição de renda, cujos símbolos maiores foram o crescimento real do salário mínimo e o Programa Bolsa Família. Não que tais ações fossem prejudiciais à acumulação de capital das empresas; exatamente o oposto, elas ganharam muito com o novo modelo de crescimento, agora com base na ampliação da classe média e na incorporação das famílias de renda mais baixa.

Logo, passada a incerteza sobre como seria um governo do PT – lembre-se dos discursos inflamados do passado sobre auditoria das dívidas interna e externa –, não havia razão para ter medo de Lula nem o Presidente precisava se preocupar com uma rejeição da elite, que era cada vez menor. Este ambiente de ganha-ganha e de distensão, com crescimento econômico, inflação controlada e contas externas em franca recuperação, criou a ilusão de que a histórica e visceral ojeriza da elite em relação a quem “veio de baixo” havia se desfeito, ou, no mínimo, estava muito diminuída. Pois não estava; estava somente adormecida, como que “jiboiando”, esperando a oportunidade para acordar e reagir com força.

 

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*Publicado originalmente no Portal Sul21.

**Professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS.





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